O céu ainda está escuro quando o alarme de David toca. Meio sonolento, ele se senta e presume que tudo ainda está escuro. Lá fora, o mundo ainda dorme. A floresta está silenciosa, exceto por alguns sons abafados da natureza acordando devagar.
Ele se espreguiça e boceja alto, mas ao se virar, percebe pela pequena janela de sua cabana que Pérsia já está de pé. Com a lanterna presa à testa, calça as botas com precisão. A mochila está pronta ao lado.
— Já de pé? — ele pergunta, coçando a nuca, ainda sem acreditar.
— Já estamos atrasados — responde, sem sequer olhar para ele. — Se quisermos pegar o Geraldo ainda no café da manhã, precisamos partir agora.
David franze a testa.
— Tem certeza de que está mesmo confortável em caminhar no escuro, no meio da floresta?
— Quem parece inseguro aqui não sou eu, senhor Smith — diz ela, pegando a mochila. — É melhor levantar. A trilha hoje é longa.
Ele a encara em silêncio. Aquela estagiária de língua afiada parece ter sumido. Em seu lugar, há uma líder nata. E isso o desestabiliza.
— Você manda — murmura, ainda surpreso, e se apressa para guardar as suas coisas.
Minutos depois, estão novamente no meio da floresta. A escuridão é cortada pelas lanternas e, conforme avançam, o céu começa a clarear suavemente atrás das montanhas.
Com passos apressados, Pérsia anda na frente. A mochila balança no ritmo do corpo e a forma como ela analisa o terreno impressiona o chefe. Parece que ela conhece cada galho, cada curva da trilha.
— Você está me surpreendendo — ele brinca.
Mas ela não responde, apenas sorri de canto, como se dissesse: “é isso mesmo que quero”.
Após uma hora de caminhada, chegam a um riacho largo, com pedras escorregadias espalhadas. A correnteza é mais forte do que aparenta.
— Vamos atravessar por aqui — Pérsia diz, tirando a lanterna da testa e prendendo o cabelo de qualquer jeito.
— Isso está escorregadio.
— Eu sei, mas a trilha continua do outro lado, veja — aponta para frente.
— Tem razão — ele diz, olhando para os lados e não vendo outro caminho. Vamos. Só toma cuidado para não cair — provoca.
— Eu não vou cair.
Sem dar espaço para mais protestos, ela pisa na primeira pedra. Vai cruzando com equilíbrio, como se fosse fácil.
David observa, boquiaberto. A forma como ela se movimenta, como o corpo dela se adapta aos obstáculos… é hipnotizante. Mas na última pedra, Pérsia escorrega e cai com um joelho na água.
— Droga — ela rosna.
Correndo até ela, pergunta:
— Você se machucou?
— Só torci o pé um pouco. Está tudo bem.
— Fica parada — ordena. — Deixa eu ver.
— Não precisa — ela rebate.
Mas ele já está abaixado na água fria, com uma mão nas costas dela, outra no tornozelo.
— Relaxa. Fica quietinha um segundo.
Mesmo constrangida, ela assente. No entanto, ver o chefe tocando-a daquele jeito a deixa descomposta.
— É só uma leve torção. Mas você não vai continuar andando com isso.
— Vai me carregar agora? — brinca.
— Exatamente.
Antes que possa protestar, David a ergue com facilidade.
Suas bochechas coram no mesmo instante.
— Não precisa fazer isso, vai acabar se cansando rápido.

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