A pequena cabana estava silenciosa, exceto pelo som da água do chuveiro caindo com força no banheiro. Pérsia mexia nos mantimentos da cozinha, separando os ingredientes do jantar que improvisaria. Nada elaborado, mas algo quente e bem temperado. Um ensopado simples, com legumes e carne enlatada. Não era gourmet, mas era honesto e depois de um dia de trilha, qualquer coisa quente bastava.
Enquanto mexia a panela, tentava não pensar no chefe. Em como ele a olhava vez ou outra enquanto estavam cavalgando, ou até mesmo na trilha, enquanto ele a carregou por parte do caminho, como se fosse tão natural.
Quando o barulho do chuveiro cessou, ela desviou os olhos da panela e os fixou na porta do banheiro. Ouviu o rangido da madeira e então ele apareceu, saindo com uma toalha jogada sobre o ombro e apenas a calça no corpo. Os cabelos molhados caíam sobre a testa, e o peito ainda úmido captava a pouca luz do cômodo. Ele parou por um instante, como se sentisse os olhos dela percorrendo cada linha do seu corpo.
— A comida está quase pronta — ela diz rapidamente, voltando a mexer a panela, tentando não corar.
Ainda em silêncio, David caminha até a pia e pega um copo d’água, notando a tentativa dela de fingir naturalidade.
— Isso está com um cheiro ótimo — comenta, com um sorriso no canto da boca.
— É o que deu para fazer com o que temos — ela responde. — Come enquanto está quente. Eu vou tomar banho.
Ela pega uma troca de roupas e entra no banheiro, fechando a porta atrás de si com mais força do que o necessário. Encarando o espelho, respira fundo. Seu coração ainda batia acelerado e não era só pelo cansaço do dia.
Quando sai do banho, encontra David sentado à mesa, com o prato praticamente vazio.
— Você cozinha bem — elogia.
— Obrigada. Espero que tenha deixado um pouco para mim.
— Claro que deixei. Não arriscaria ver você nervosa de fome.
Ela ri, pega seu prato e se senta do outro lado da mesa. Ele a observa enquanto ela come, em silêncio. O clima parece mudar novamente, mas nenhum deles diz nada.
— Acho que está na hora de dormir — ela diz, após terminar.
David concorda com um aceno e vai apagar as luzes, deixando apenas uma lâmpada fraca acesa ao lado da cama.
Ambos fazem suas higienes e se ajeitam. Pérsia se deita de costas para ele, com o corpo um pouco tenso e os músculos ainda doloridos da trilha. Mas mesmo com o cansaço, o sono não vem.
David também não dorme. O colchão afunda levemente do lado onde está, e ela ouve os movimentos sutis enquanto ele muda de posição. O silêncio entre eles é tão denso quanto a floresta lá fora.
Alguns minutos se passam.
Inquieta, Pérsia se vira e dá de cara com os olhos dele, abertos, a observando com intensidade.
— O que foi? — pergunta, com a voz baixa.
— Nada — ele responde, sem desviar os olhos. Mas a forma como a olha diz tudo.

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