Um esboço de sorriso ameaça aparecer nos lábios de Hector, mas ele se contém rapidamente. Afinal, ele meio que esperava essa reação. Sabia que, assim que Ava recuperasse totalmente a memória, o orgulho e a vergonha a dominariam, impedindo-a de encarar os pais e admitir que havia errado.
No entanto, ele se finge de desentendido.
— O que quer dizer com isso?
Ela se aproxima novamente da mesa em que ele está sentado e comenta:
— Já está muito tarde, e eu não acho uma boa ideia sair daqui a uma hora dessas.
Balançando a cabeça em sinal de negação, Hector passa a mão pelo cabelo, num gesto que denota nervosismo.
Embora ele faça isso de modo automático, Ava não deixa de notar sua beleza. Desde que assumiu a presidência da empresa da família, ela conhecia a reputação de Hector Moreau como um homem poderoso e temido. Imaginava um senhor idoso e ranzinza, mas ao encontrá-lo pessoalmente e serem apresentados, sua surpresa foi imensa. Nunca esperava que ele fosse tão jovem e atraente. Engolindo em seco, ela se esforça para afastar esses pensamentos.
— E para ser bem sincera, nesse momento eu não tenho para onde ir — Ava continua.
Estranhando aquela revelação, Hector indaga:
— Achei que sairia daqui e iria direto para a delegacia.
Ela morde os lábios.
— E que provas eu teria contra o meu noivo? — pergunta, transbordando a sua frustração. — Claro que desde o meu “acidente” — ela faz aspas com as mãos —, devem ter investigado as causas, mas se não encontraram nenhuma imagem do James me colocando no carro e nem adulterando o veículo, isso só mostra que ele não deixou rastros — diz, pensativa.
Notando o quão astuta ela era, ele concorda.
— E tudo se torna ainda mais complicado porque eu não apareci depois do acidente para denunciá-lo. — Ava continua.
— É só você comentar o que aconteceu depois.
— Sim, eu posso chegar lá e dizer que você me sequestrou e se aproveitou por eu estar com amnésia, mas… — ela pondera, pensativa. — Não vou fazer isso.
A sobrancelha de Hector se ergue e ele faz uma expressão estranha de surpresa.
— O que está dizendo? — pergunta ela.
— Não me pergunte isso agora — ela diz, desviando o olhar e caminhando em direção à grande janela do escritório.
Hector se levanta, num movimento rápido como o de um predador, e caminha até Ava, que, de costas, observa o jardim. A proximidade dele é tão evidente que, mesmo sem vê-lo, Ava sente uma corrente elétrica percorrer seu corpo, fazendo seu coração acelerar.
— O que realmente está passando pela sua cabeça, Ava? — A voz dele é um sussurro quente em seu ouvido, provocando um arrepio involuntário que a percorre.
Ela tenta manter a compostura, mas ao fechar os olhos, uma sensação estranha a inunda.
— Por que acha que estou escondendo algo? — responde, mas sua voz falha sutilmente.

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