— Onde está o Hector? — pergunta Rafaela ao retornar com uma nova bandeja de sorvete nas mãos, sorridente, tentando manter o clima leve.
Se virando para a mãe, Ava força um sorriso, mesmo com o coração ainda acelerado pela conversa anterior.
— Ele… precisou ir embora — responde, desviando o olhar por um instante.
— Como assim? — Rafaela franze o cenho, pousando a bandeja sobre a mesa. — Ele nem se despediu.
— Pois é... — Ava responde, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha, tentando parecer natural. — Foi algo de última hora. Ele até pediu para eu pedir desculpas a vocês… disse que não queria parecer mal-educado.
Mentira. Mas era mais fácil do que explicar o clima que ficou depois do que ele disse.
Encarando a filha em silêncio por um segundo, Rafa percebe algo no olhar dela — talvez um desconforto.
Mas, como boa mãe, apenas sorri, ainda que de forma mais contida.
— Que pena. Estava começando a gostar da presença dele aqui.
Forçando outro sorriso, Ava sente um nó na garganta apertar. Ela sabia que, naquele momento, Hector tinha saído por orgulho. Mas também sabia que, dessa vez… era ela quem o estava afastando.
— É bom que sobra mais sorvete para nós — brinca Rafaela, tentando aliviar qualquer resquício de stress enquanto serve uma taça para a filha. — E olha que esse é de um sabor que ele parecia estar gostando bastante… azar o dele.
Aceitando a taça, Ava sorri. A leveza da mãe era um alívio naquele momento.
Logo em seguida, Ethan retorna, já com um semblante mais calmo, e se junta a elas. Lentamente, a conversa muda de tom, passam a falar de coisas simples: lembranças da infância, histórias engraçadas, até algumas memórias que arrancam risadas espontâneas.
O clima se transforma.
Sentada entre os dois, Ava se sente acolhida de um jeito que há tempos não experimentava. Observa os pais trocando sorrisos, a mãe ajeitando o cabelo do pai com carinho e, por um momento, tudo parece certo.
Ela apoia a taça na mesinha e os observa em silêncio, até soltar, com a voz contida de emoção:
— Como eu senti falta disso…
Os dois a olham, surpresos com a sinceridade repentina.
— Senti falta de estar assim, com vocês. Sem cobranças, sem julgamentos. Só juntos. — Seus olhos brilham, e um sorriso tímido escapa. — Eu quero ter muitos momentos assim. Em família. Com vocês.
Emocionada, Rafaela segura a mão da filha com delicadeza.
— E nós vamos, meu amor — diz, apertando os dedos dela. — Vamos recuperar cada minuto que ficou para trás.
— Vai ser diferente agora — completa Ethan, com um leve sorriso no rosto. — Você voltou para casa… e isso já é um recomeço.
Ava assente, sentindo o peito aquecido.
E ali, naquela tarde simples à beira da piscina, cercada de sorrisos e sorvete derretendo nas taças, ela entende que talvez estivesse começando, de verdade, a reconstruir mais do que só sua vida, mas também sua história.
[…]
A noite cai devagar, pintando o céu de tons azul-escuro e sombras densas que escorriam pelas janelas da casa de Hector. O relógio marcava quase nove da noite, e o silêncio ali dentro era quase ensurdecedor.
Ele estava no quarto, sentado na beira da cama, com a camisa meio aberta e os cabelos um pouco bagunçados, fruto das mãos impacientes que já haviam passado por eles umas vinte vezes naquela última hora.
Na tela do celular, nenhuma notificação. Nenhuma mensagem. Nenhum sinal dela.
Ele bloqueia a tela e solta um suspiro pesado, apoiando os cotovelos nos joelhos e abaixando a cabeça por um momento, como se quisesse reunir a paciência que já não existia.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Caminho traçado: Resgatada pelo inimigo