Ao acordar pela manhã, Ava sente o corpo todo dolorido, como se cada músculo lembrasse do peso da noite anterior. Ela arregala os olhos e força a si mesma a mantê-los abertos, mesmo quando começam a arder e as lágrimas ameaçam surgir. Era uma estratégia tola, mas funcionava; porque sempre que fechava os olhos, os flashes da noite com Hector voltavam como uma avalanche.
— Por que ele tinha que ser tão perfeito? — murmura para si mesma, sentindo a voz falhar de exaustão.
Com passos lentos, caminha até o banheiro. Precisa de outro banho. O primeiro, tomado às pressas assim que chegou ao quarto, não foi o bastante. O perfume dele continuava na pele, grudado nela como uma lembrança teimosa. E, por mais que tentasse lavar aquilo, o que realmente queria apagar era o que ele causava por dentro.
O que mais a deixava sem rumo era o jeito como ele conduziu tudo. Como ele sabia exatamente o que fazer, como tocar, onde pressionar, quando parar… e quando não parar. Hector tinha um jeito firme, seguro, dono da situação. Um homem de verdade. Intenso, viril, invencível.
E o pior: ele sabia disso.
— Oh, céus… — ela pensa, esfregando os olhos — como alguém consegue ser assim?
Ela só havia tido um homem na vida. James. E, sinceramente, depois do que viu dele… era injusto colocar ambos na mesma categoria. James não tinha pegada, não tinha presença, não a fazia se sentir nada daquilo que Hector fez questão de despertar apenas numa noite… numa maldita noite.
“Droga… por que eu estou pensando nisso logo agora?”
Se sacode, tentando se livrar da lembrança, mas a imagem dele por cima, sussurrando em seu ouvido, vem com força.
Respirando fundo, termina o banho com pressa e se veste como quem tenta disfarçar até de si mesma. Quando abre a porta do quarto, faz isso no maior silêncio, como se estivesse fugindo da própria cabeça. E, no fundo, estava mesmo.
Caminha pela casa, evitando qualquer som, até encontrar Doris na lavanderia, mexendo em uma pilha de roupas.
— Bom dia, Doris — diz, forçando um sorriso.
Doris a encara por alguns segundos, como quem percebe tudo, mas não diz nada de imediato. Apenas deposita um cesto no balcão e responde:
— Bom dia. Como está se sentindo hoje?
— Bem, obrigada.
— Eu não te vi chegando ontem, achei que ainda estava na casa dos seus pais.
— Bem que eu queria ter continuado lá, mas precisei voltar.
— Pelo Hector, não é mesmo?
— Como você sabe? O que ele te disse? — pergunta, nervosa.
— Ele não disse nada — revela, estranhando o nervosismo dela por pouca coisa. — Na verdade, ele só pareceu meio preocupado.
— Com o quê?
— Você precisa saber de uma coisa… Sua foto está estampada nas capas de todos os jornais de hoje. As pessoas descobriram que você voltou. E, pelo que parece, já começaram a especular tudo.
O estômago dela gela.
— O que estão especulando?
— Sobre o acidente, o sumiço, o casamento com o Hector. Tem gente dizendo que foi forçado, outros falando em chantagem… — ela dá de ombros, com um suspiro desconfortável. — Os repórteres já devem estar por aí, feito zumbis, acampados na porta.
Fechando os olhos por um instante, Ava tenta processar tudo.
Claro que isso ia acontecer e estava até demorando.
— Obrigada por avisar — diz, tentando manter a compostura, embora por dentro sentisse como se estivessem puxando o chão sob seus pés.
— Como foi com os seus pais? — Doris continua.
— Deu tudo certo, graças a Deus — responde, ajeitando o cabelo atrás da orelha, tentando soar natural.
Mas nada nela estava natural. Porque por dentro… o caos estava armado.
— Será que você poderia me emprestar o seu carro? — pergunta Ava, um pouco hesitante.

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