Assim que sai do hospital, respira fundo antes de encarar o sol forte lá fora. O clima abafado parece combinar com a confusão em sua mente. Em vez de ir direto para a casa dos pais, decide resolver uma pendência que já vinha adiando há dias.
Ela entra em uma loja de celular e, com paciência, passa alguns minutos ali, explicando a situação, escolhendo um novo aparelho e recuperando o que podia de seus dados antigos. Fotos, contatos, mensagens… uma parte da vida que havia ficado congelada, esperando para ser restaurada.
Com o novo aparelho em mãos e a sensação estranha de estar “conectada” novamente, ela sai da loja e decide ir direto para a casa dos pais. Queria dar mais atenção a eles e, sinceramente, precisava de um lugar mais silencioso para organizar os próprios pensamentos.
Mas, no caminho, enquanto dirige, algo começa a incomodá-la.
Pelo retrovisor, percebe um veículo prata, discreto, seguindo-a. Para ter a certeza de que estava mesmo certa, muda de trajeto, no entanto, o carro faz o mesmo.
“Será que estou ficando paranoica?” pensa, com o coração já batendo mais rápido.
O nó na garganta aperta e o coração martela tão alto que parece ecoar dentro do carro. A cada quadra que passa, a sensação de estar sendo seguida só piora.
Ela olha pelo retrovisor pela quinta vez em menos de dois minutos.
O mesmo carro não acelera, não ultrapassa. Só acompanha.
Calmo demais para ser jornalista.
Assustador demais para ser coincidência. Então, o pânico vem junto.
E se for o parceiro de James, que a polícia ainda não conseguiu prender?
Girando o volante com as mãos tremendo, procura desesperadamente algum lugar seguro. Com gente, movimento e câmeras. Qualquer coisa.
E então vê, à frente, a empresa de Hector.
— Ah, merda… — murmura, encostando o carro. — De todos os lugares no mundo.
Sem ter tempo para pensar demais, ela vê o carro que a segue parando também, então, desce do carro depressa e entra na empresa.
Seu salto ecoa no piso de mármore da entrada assim que atravessa a porta giratória. A segurança na recepção a reconhece de imediato, mas não a barra. Ava nem precisa dizer seu nome, todos sabiam quem ela era.
Sem conversar com ninguém, caminha em direção ao elevador. Respirando fundo, aperta o andar de Hector com o dedo trêmulo, encarando o espelho por um instante. A maquiagem leve já não disfarça o medo. Seus olhos estão arregalados, e seu peito sobe e desce rápido demais.
— Droga… Por que ele tinha que ser o único lugar seguro agora?
As portas do elevador se abrem e ela sai, caminhando com passos firmes, mas o coração ainda acelerado pela sequência de acontecimentos.
Ao se aproximar da mesa da secretária de Hector, seus olhos analisam, mesmo sem querer.
A moça é jovem. Muito jovem. Cabelos loiros presos em um coque impecável, pele bronzeada como quem passa os fins de semana em iates e olhos verdes brilhantes que sorriem até quando estão sérios. Elegante e delicada. Uma daquelas que parecem ter saído de um catálogo.
E é aí que uma vozinha irritante da sua consciência fala, sem ser chamada:
“Será que eles mantêm o ambiente estritamente profissional…?”
Já se arrependendo da própria linha de pensamento, pisca várias vezes.
— Oh, cale a boca — murmura impaciente.
— Perdão, senhora? — pergunta a secretária, franzindo a testa, visivelmente confusa.
— Nada — responde rápido, endireitando os ombros e forçando um sorriso. — Só… falei comigo mesma.
— Entendo… — a moça responde, ainda a observando com curiosidade.
— O Hector está? — Ava pergunta, tentando manter a calma.
— Está sim — responde a secretária, com um sorriso educado.

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