Se endireitando na cadeira, Hector passa a mão no queixo, alisando a barba rala que havia feito pela manhã. O gesto é lento, quase programado. Enquanto faz isso, lança um olhar firme para Ava, com o maxilar travado, claramente ofendido com o tom exigente dela.
— Vejo que você não perde tempo mesmo, hein? — ironiza, engolindo em seco.
Mantendo a expressão fria, Ava cruza as pernas e diz:
— Já perdi quase dois meses da minha vida. Acha mesmo que eu deveria continuar do jeito que estava?
— Não, claro que não — ele responde, inclinando-se um pouco à frente — mas se não fosse pela minha ajuda, você teria perdido mais do que isso.
O tom provocativo dele é direto, certeiro. E ela sente.
Ava estreita os olhos, esfregando uma mão na outra, como se estivesse segurando a resposta com força, escolhendo cada palavra com cuidado.
— Não me diga… — começa, com a voz baixa — que agora vai querer aplausos por ter me tirado de uma situação que você ajudou a criar.
Hector solta uma risada seca, sem humor.
— Eu não criei nada. Eu só soube aproveitar a oportunidade… como qualquer bom empresário faria.
— E como todo homem orgulhoso — ela rebate.
Os dois se encaram por um segundo que parece durar uma eternidade.
Era como se o orgulho de um estivesse constantemente tentando romper o escudo do outro.
E no meio disso tudo, um sentimento que nenhum dos dois ousava nomear… crescia em silêncio.
O silêncio entre eles é cortante. Ava não desvia o olhar. Hector também não. É como se estivessem medindo forças, não com gritos, mas com palavras afiadas e olhares carregados.
— Você pode usar todos os termos empresariais que quiser — ela continua. — Mas no fim das contas, você me usou. Como moeda. Como vantagem.
— E você aceitou o acordo — ele rebate, agora com o tom mais áspero. — Ninguém te forçou a dizer “sim”. Aliás, se não quisesse estar aqui, já teria dado um jeito de sumir.
Ava se inclina para frente, agora com os olhos faiscando.
— Você quer que eu faça isso, Hector?
Ele para, como se também estivesse medindo as palavras.
— Não, eu não quero que você se vá — dispara, sério o suficiente para ela perceber que ele não estava brincando.
— Então, vai me devolver as minhas ações?
Hector se levanta bruscamente da cadeira, fazendo Ava se sobressaltar no mesmo instante. Ela não esperava aquela reação repentina, mas também não desvia o olhar.
Ele caminha até uma prateleira no canto direito do escritório, com os passos firmes, tensos. Passa os olhos rapidamente por algumas pastas, até que seus dedos encontram uma em especial: uma pasta vermelha, grossa, marcada com um discreto clipe dourado.
Sem dizer uma palavra, ele retorna para perto dela, para à frente da mesa, respira fundo, e então estende o braço, oferecendo a pasta.
— Eu nunca tive a intenção de ficar com elas — diz, com a voz mais contida.
Surpresa, Ava o encara por alguns segundos, antes de pegar a pasta de suas mãos. A expressão dele não revela sarcasmo, nem ironia. É sincera.
Por um instante, Ava passa os olhos pelas páginas, linha por linha, tentando manter a expressão controlada. Mas conforme vai lendo, o impacto cresce.
Ali estavam os documentos oficiais, assinados e carimbados.
As ações que James havia passado para Hector… já estavam transferidas de volta para ela.

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