O corredor da clínica parecia longo demais.
Emma caminhava em silêncio, a bolsa presa ao ombro como se fosse um escudo.
Thiago segurava os papéis dos exames, mas não olhava para eles.
Quando entraram no carro, o silêncio ficou mais pesado.
Ele ligou o motor.
Desligou.
Olhou para ela.
— Amor…
Ela mexia no celular.
— A gente precisa conversar sobre o congelamento. — ele disse com cuidado.
— A Clara explicou tudo. — Emma respondeu rápido demais. — É simples. A gente faz e pronto.
Simples.
A palavra soou deslocada.
Thiago respirou fundo.
— Eu sei que você está com medo.
Ela riu, curta.
— Eu não estou com medo. Estou atrasada.
Ele a encarou.
— Emma—
— Eu tenho aquela reunião com o financeiro hoje, lembra? — ela interrompeu. — Preciso revisar os números antes do meio-dia.
Thiago ficou em silêncio.
Ela estava mudando de assunto.
Não por frieza.
Por sobrevivência.
— Você não precisa ir hoje. — ele disse.
Ela virou o rosto para a janela.
— Preciso sim.
A frase não era sobre trabalho.
Era sobre controle.
E controle era a única coisa que ela ainda acreditava ter.
Emma tentou ficar até o fim do expediente.
Tentou.
Mas o corpo não colaborava.
O cansaço não era comum.
Era pesado. Denso. Como se cada movimento exigisse negociação.
Ao meio-dia em ponto, ela fechou o computador devagar, como se o barulho pudesse denunciá-la.
Levantou-se, ajeitou a bolsa no ombro e foi até a mesa da secretária.
— Vou sair agora. — disse baixo. — Não volto mais hoje.
A secretária levantou o olhar, surpresa.
— Tudo bem, Emma.
Ela assentiu e seguiu pelo corredor.
O som dos próprios passos ecoava demais.
Ao passar próximo ao café interno, ouviu vozes.
Não eram sussurros.
Nem gritos.
E foi exatamente por isso que doeram.
— Já vai embora de novo? — disse uma mulher, rindo. — Trabalha quatro horas e ganha o triplo da gente.
— Ah, mas também… — a outra respondeu, debochada. — É só namorar o vice-presidente.
Emma não parou.
Não olhou.
Mas cada palavra ficou.
Cravou.
Entrou no elevador com o maxilar travado.
As portas se fecharam, e o reflexo no espelho devolveu um rosto pálido demais para aquela versão dela.
Quando chegou ao apartamento, largou a bolsa no sofá.
Sentou.
Depois levantou.
Depois sentou de novo.
O silêncio começou a falar.
E não era gentil.
"Você está virando um peso."
Ela fechou os olhos.
Inútil.
A mão foi ao rosto.
"Era melhor morrer logo."
Ela abriu os olhos de repente, assustada com o próprio pensamento.
— Para… — murmurou para o vazio.
Foi até o minibar quase no automático.
Serviu uma dose de whisky.
Bebeu de uma vez.
O líquido queimou, mas não silenciou nada.
O espelho da sala refletia tudo:
o corpo cansado,
o rosto abatido,
a mulher que ela não reconhecia mais.
— Olha pra você… — disse em voz alta, a garganta apertada.
O copo voou antes que ela percebesse.
O som do vidro se espatifando ecoou pela sala.
Depois outro.
E outro.
Garrafas sendo derrubadas, quebradas, estilhaçadas.
Não era raiva do álcool.
Era raiva do corpo.
Sentada no chão, encostada no sofá, o olhar perdido.
Thiago correu até ela e se ajoelhou.
— Meu amor… — a voz saiu baixa, assustada. — O que aconteceu? Você se machucou?
Ela levantou o rosto devagar.
— O que você faz aqui? — perguntou, seca.
— Eu fiquei preocupado. — respondeu, simples.
Quando se aproximou mais, sentiu o cheiro de álcool.
O corpo dele travou.
— Você bebeu? — perguntou, tentando manter a calma. — Amor… por quê? Você não pode. Você—
— Para. — ela interrompeu, a voz subindo. — Para de falar comigo assim.
Tentou se levantar, falhou, apoiou-se no sofá.
— Eu já falei que não quero a sua pena, Thiago. — disse, os olhos brilhando de raiva e dor. — Eu não preciso que você sinta dó de mim.
— Emma, eu—
— Eu ainda sou a mesma pessoa! — ela explodiu. — Só estou com um câncer de merda!
O silêncio caiu pesado.
Thiago abriu a boca, mas ela continuou.
— Tudo isso é injusto. — disse, gesticulando para o caos ao redor. — Eu não pedi isso. Eu não fiz nada pra merecer isso!
Ele se aproximou mais um pouco.
— Amor—
— Nada vai mudar! — ela gritou. — Nada, Thiago. Minha rotina, meu trabalho… nada vai mudar.
Finalmente conseguiu ficar de pé, mesmo cambaleando um pouco.
— Você não vai me transformar em uma doente frágil. — disse, apontando para ele. — Eu não sou isso.
Virou-se e começou a andar em direção ao corredor.
Parou antes de entrar no quarto.
Olhou para trás.
— Eu não vou beber mais. — disse, mais baixa. — Foi só… hábito de uma vida que existia antes dessa merda toda.
E desapareceu pelo corredor.
O som da porta do banheiro se fechando ecoou pela casa.
Thiago permaneceu ali.
Ajoelhado no chão.
Entre cacos de vidro e silêncio.
Passou a mão pelo rosto devagar.
Não estava bravo.
Não estava ofendido.
Estava com medo.
Porque ele sabia, com uma clareza que doía:
Nada iria mudar.
Era a maior mentira que ainda contariam um ao outro.
Tudo mudaria.
E o desafio não era impedir isso.
Era aprender a atravessar juntos.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com Meu Chefe Frio e Bilionário
Paguei e mesmo assim o capitulo não abre... :(...
Impossível de ler, vários capítulo não abrem só aparece o anúncio. Vou nem gastar dinheiro pq vou me arrepender...
Caraca vários capítulos não abrem. Muito ruim assim. mailto:[email protected]...
Quando vai liberar os próximos capítulos, please??????...
Libera mais capítulos pff...