O silêncio na delegacia não era calmo.
Era denso.
Carregado.
Sofia permanecia em frente aos monitores, imóvel, os braços cruzados com força sobre o próprio corpo. A operação havia terminado, mas o eco dos disparos ainda parecia vibrar no ar. O café ao lado dela estava intocado havia horas.
Quando as imagens começaram a mostrar o interior do contêiner, o estômago de Sofia revirou.
Meninas.
Muito novas.
Algumas chorando em silêncio.
Outras paralisadas, olhando para lugar nenhum.
Uma delas estava caída, o sangue manchando a roupa clara.
— Meu Deus… — Sofia murmurou, levando a mão à boca.
Não era teoria.
Não era relatório.
Não era papel.
Era real.
Ela sentiu as pernas fraquejarem por um segundo e precisou se apoiar na mesa. Aquilo atravessava qualquer blindagem emocional que ela tivesse construído ao longo dos anos.
— Chama assistência social. Agora. — ordenou, a voz firme apesar dos olhos marejados. — E um psicólogo. Elas não podem sair daqui sem acompanhamento.
O delegado Mourão assentiu, sério.
— Já providenciando.
Minutos depois, a porta da delegacia se abriu com força.
Sofia virou-se no mesmo instante.
Thomas entrou.
O paletó estava rasgado no ombro. A camisa manchada de sangue — não era possível dizer de quem à primeira vista. Um curativo improvisado envolvia o braço esquerdo. O rosto estava tenso, marcado pelo cansaço e pela adrenalina que ainda não havia baixado.
O coração de Sofia falhou uma batida.
Ela caminhou até ele sem pensar.
— Você está ferido. — disse, a voz mais baixa do que pretendia.
— Não foi nada grave. — respondeu. — Estilhaço. Já cuidaram.
Mas ela não ouviu a parte final.
Os olhos dela estavam presos àquele detalhe simples e aterrador:
ele tinha voltado.
— As meninas… — Sofia começou, engolindo em seco.
Thomas assentiu.
— A maioria está bem fisicamente... em choque. — disse com pesar. — Uma em estado grave, mas chegou consciente ao hospital.
Sofia fechou os olhos por um instante.
Alívio misturado com revolta.
Com culpa.
Com raiva.
— Ela estava lá. — Thomas continuou, mais baixo. — Nicole. Eu vi.
Sofia abriu os olhos devagar.
— Tem certeza?
— Absoluta. — respondeu. — Saiu do carro. Deu ordens. Não estava escondida atrás de ninguém.
O silêncio que se seguiu foi diferente.
Não havia mais dúvida.
— Ela fugiu. — Thomas completou. — O carro era blindado. Não consegui parar.
Sofia respirou fundo.
— Mas agora ela não é mais sombra. — disse, firme. — Tem rosto. Tem método. Tem padrão.
E tem testemunhas.
Thomas a observou por alguns segundos. Havia algo diferente no olhar dele — não só admiração, mas reconhecimento.
— Você estava certa. — disse, por fim. — Desde o começo.
Sofia não respondeu.
Ela voltou o olhar para o monitor, onde uma das meninas era coberta por um cobertor térmico, tremendo.
— Isso não termina hoje. — murmurou. — Para nenhuma delas.
Thomas deu um passo à frente, mais perto do que o profissional exigia… mas parou antes de cruzar qualquer limite.
— Não. — concordou. — Mas hoje a gente salvou vidas.
Ela assentiu lentamente.
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Do outro lado da cidade, o carro avançava pelas ruas ainda escuras.
Nicole estava no banco de trás, os dedos cravados no couro do assento.
— Merda. — sibilou. — Merda!
O capanga ao volante tentou manter a calma.
— Senhora, não sabemos se eles viram seu rosto.
Nicole soltou uma risada curta. Sem humor.
— Viram. — respondeu. — Thomas Alves me viu. Agora ele tem certeza.
O carro fez uma curva brusca.
Ela respirou fundo, recuperando o controle aos poucos.
— Certifique-se de que ninguém ligue meu nome a ser a chefe. — ordenou. — Nenhum rastro. Nenhuma falha.
— Sim, senhora.
Nicole olhou pela janela.
O reflexo da própria imagem no vidro mostrava algo que ela conhecia bem:
frieza.
— Eles acham que ganharam. — murmurou. — Isso foi só o começo.
No corredor, encontrou Alex com uma pasta debaixo do braço.
— Estava indo te procurar. — Alex disse. — A Sofia está no hospital com as meninas. Conseguiu detalhes que nossa equipe não tinha conseguido. E o escritório dela vai bancar o tratamento psicológico de todas.
Thomas soltou um riso baixo, quase involuntário.
— Essa é minha ruivinha…
A frase saiu antes que ele pudesse filtrar.
Alex fingiu não ouvir.
Thomas pegou a jaqueta.
— Vou até lá. Levar alguma coisa pra ela comer. Aposto que não almoçou.
No hospital, ele entrou discreto, procurando sem pressa.
E foi quando viu.
Sofia estava sentada no refeitório. À frente dela, Enzo falava algo baixo. Nada íntimo. Nada suspeito. Mas suficiente para o estômago de Thomas se contrair.
Ele parou.
Observou de longe.
Respirou fundo.
— Você não vai fazer cena. — murmurou para si mesmo. — Sofia sempre odiou isso.
Deu meia-volta.
Saiu do hospital e foi até o pequeno jardim lateral. Sentou-se em um banco de metal frio. O vento batia no rosto, ajudando a organizar pensamentos que insistiam em correr soltos demais.
Ele fechou os olhos por um instante.
Não era ciúme possessivo.
Era medo.
Medo de chegar tarde demais.
Medo de que, enquanto ele aprendia a ser inteiro, Sofia já tivesse seguido em frente.
Thomas apoiou os cotovelos nos joelhos, encarando o chão.
Ele sabia que não tinha direito algum.
Mas saber não tornava mais fácil sentir.
Do outro lado do vidro do hospital, Sofia terminava de se despedir das meninas.
Sem promessas.
Sem discursos.
Apenas presença.
E, naquele domingo silencioso,
os dois estavam fazendo a coisa certa.
Mesmo que doesse.
Mesmo que custasse.
Mesmo que amar, agora,
exigisse maturidade — não coragem.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com Meu Chefe Frio e Bilionário
Quando vai liberar os próximos capítulos, please??????...
Libera mais capítulos pff...