"Isabella"
Em casa, me senti melhor. Ainda havia uma dor leve na cabeça e no corpo, mas sair do hospital e deitar na minha própria cama foi, naquele momento, o melhor remédio. O silêncio do apartamento, porém, não era tão tranquilizador quanto eu imaginava. As lembranças vinham sem aviso e eu ainda não conseguia afastar a sensação de perigo, como se algo pudesse acontecer a qualquer instante.
Augusto não saiu do meu lado. Caminhava pela casa em passos curtos, o celular sempre na mão, conversando, tomando providências. Só se afastava por poucos minutos, quando precisava atender alguma ligação.
Camila também ficou. Sentou-se no sofá comigo, trouxe água, ajeitou a manta sobre minhas pernas. Falava pouco, mas seus olhos diziam tudo, estava com medo também.
— Você precisa descansar — disse, tentando soar normal. — O médico foi claro. Precisa se alimentar bem, vou fazer uma sopa, igual à da minha mãe, bem reforçada.
Assenti, mas o descanso não vinha.
Sempre que eu tentava entender o que tinha acontecido durante o sequestro, Augusto mudava de assunto. Camila fazia o mesmo. Era impossível não perceber que havia mais coisas escondidas. A verdade parecia mais perigosa do que a mentira. Mas por quê?
Com o passar das horas, minha mente começou a clarear. As lembranças foram se encaixando, ainda fragmentadas, mas mais nítidas. E, junto com elas, surgiram perguntas que ninguém queria responder, mas eu não era de vidro, precisava saber.
— Como o Carlos saiu da cadeia? — perguntei em voz baixa, quebrando o silêncio. — E o irmão dele?
Augusto e Camila trocaram um olhar rápido demais para passar despercebido. Era uma pergunta que vinha me atormentando.
— Isa… — Camila começou, mas parou.
O silêncio deles dizia mais do que qualquer resposta. Minha imaginação correu solta, criando cenários que eu não conseguia afastar. E se eles tivessem fugido? E se estivessem livres? E se Marco Aurélio tivesse encontrado outra forma de terminar o que tinha começado?
— Augusto, chega — minha voz saiu mais firme do que eu me sentia. — Eu preciso saber o que aconteceu, não vou quebrar, tenho na cabeça as lembranças de ontem, mas quero saber de tudo, todos os detalhes.
Ele me encarou por alguns segundos. Não havia mais como adiar.
Então contou. Desde o início, quando percebeu meu desaparecimento: a busca, as falhas na segurança, o colar que ajudou menos do que esperavam, e a informação de Karen sobre a casa. Tudo era muito mais amplo do que eu imaginava. Marco Aurélio não tinha agido de forma leviana. Nada fora improvisado, cada passo havia sido calculado. Não era algo de um dia para o outro, todo aquele silêncio tinha sido o tempo necessário para planejar como me eliminar de uma vez por todas.
Eu tinha entendido tudo errado.
Saber que Márcio tinha morrido no local trouxe um certo alívio. Mas Carlos estava internado, em estado grave, sob custódia. E eu não sabia como me sentir em relação a isso.
A lembrança veio com força. O rastreador. Um detalhe que, na hora, parecia pequeno demais para importar. Tinha sido naquela manhã… mas parecia outra vida. No desespero, eu tinha esquecido que estava com o colar. Mesmo assim, ele pouco ajudou. A informação decisiva veio de Karen.
— Como Karen sabia onde eu estava? — Era uma pergunta boba, percebi na hora. Minha irmã sabia o que acontecia comigo?

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido