"Isabella"
Augusto não conseguia ficar parado. Ligava, falava, se movimentava o tempo todo. Trocou a empresa de segurança, desvinculando-se da antiga que cuidava da proteção de toda a família, e contratou uma nova depois de avaliar inúmeras recomendações, entrevistar a equipe com atenção e checar cada informação. Também solicitou uma vistoria completa na casa, para ter certeza de que não havia nada suspeito.
Enquanto isso, eu permanecia em repouso, me recuperando e pensando. Tinha receio de tomar mais remédio por causa da gravidez, mas, na primeira noite, quando me deitei na cama e fechei os olhos, tudo voltou à minha mente. Por instantes, eu não estava mais em casa, e sim na cova, sendo enterrada.
Foi preciso um calmante para conseguir descansar, mas a sensação não foi embora. Augusto marcou consultas com um psicólogo e um psiquiatra, temendo novas reações. Durante o dia até conseguia me manter relativamente calma, mas tinha medo do silêncio, medo de barulhos, medo de qualquer coisa. O dia seguinte foi pior do que o primeiro.
E no dia em que tive de ir à delegacia, sair de casa foi muito mais complicado do que eu imaginava, mesmo com Augusto ao meu lado, sentia o corpo inteiro tremer.
Me senti estranha ao atravessar a porta da delegacia, com a sensação de estar sendo vigiada. Podia ser só o medo falando, eu tinha Augusto ao meu lado e um monte de seguranças que mal conhecia, mas, ainda assim, sentia como se alguém fosse surgir das sombras e eu não fosse capaz de fugir.
Augusto caminhava ao meu lado, atento demais, como se qualquer pessoa ali pudesse ser uma ameaça. O lugar não era acolhedor, e tudo o que eu queria era voltar para a segurança do apartamento.
— É só dizer a verdade — murmurou, inclinando-se levemente em minha direção. — Eu vou estar aqui o tempo todo.
Assenti, mas minhas mãos tremiam, não era medo de falar.
Era medo do que falar significava: viver tudo de novo, mais uma vez.
Fomos conduzidos até uma sala pequena, de paredes cinzentas. No centro, uma mesa metálica, um escrivão e o delegado, cercados por pilhas de papéis.
O delegado falou, mas eu não conseguia prestar atenção direito, qualquer barulho do lado de fora me distraia.
— Isabella — disse o ele, folheando uma pasta. — Vamos começar do início.
Do início.
Respirei fundo. As imagens vieram em ondas: o medo, a escuridão, o cheiro da terra, a sensação de que eu não sairia dali viva. Por um instante, quase pedi para ir embora. Mas então pensei no Ícaro. No tiro. No meu filho.
— Eu tinha ido a uma loja comprar um presente e, logo em seguida, fui para o estacionamento. Não percebi nada de diferente. Vi o segurança na porta da loja quando cheguei, mas depois não reparei em mais nada. No estacionamento, notei que estava vazio, o que era incomum. Foi quando o Márcio apareceu, no momento em que eu abria a porta do carro — comecei, com a voz firme por fora e em frangalhos por dentro, tentando relembrar cada detalhe.
Enquanto eu falava, percebi Augusto se enrijecer a cada palavra, apertando minha mão. Ele sabia o que tinha acontecido, mas não em detalhes. Algumas coisas eu ainda não tinha conseguido dizer em voz alta novamente. Nem mesmo ali, ao relatar os acontecimentos, mencionei tudo o que Carlos havia me dito. Ainda tentava processar aquelas informações.
— O Carlos falou de mais alguém envolvido? — perguntou o delegado, sem emoção.
O nome pesou na minha boca.
— Sim. — Hesitei por um segundo. — Ele disse que não estava agindo sozinho. Antes de me jogar no buraco, falou que o Marco Aurélio, pai do Augusto, tinha financiado tudo. Não deu maiores detalhes, apenas isso.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido