"Marco Aurelio"
Sempre achei curioso como as pessoas confundem silêncio com derrota.
Aprendi cedo que quem fala demais perde o controle da narrativa. O mundo pertence a quem observa, espera e age no momento exato. Sempre funcionou assim para mim.
Isabella sobreviveu.
Ícaro também.
Essa era uma lição que eu já conhecia, não se deve confiar nas pessoas para fazer um serviço bem feito. Ainda assim, a narrativa era perfeita, um assalto em um bairro distante, algo comum. Um ex-marido vingativo, ressentido. Tudo coerente. Tudo fácil de aceitar. O problema não foi o plano. O problema foi a incompetência.
Um desfecho medíocre.
Márcio era previsível. Carlos, impulsivo. Homens assim servem apenas para executar ordens simples, jamais para improvisar. Pelo que averiguei sobre a vida dos dois, não consigo entender como chegaram tão longe sendo tão incapazes. Ao menos um estava morto e não daria mais trabalho.
O trabalho agora viria dos meus filhos.
Sempre soube que eram um bando de inúteis. Por um tempo, até achei que Augusto tivesse algum talento. Era questão de lapidar. Toda aquela rebeldia poderia ter sido usada da forma certa. Devia ter acabado com aquela história de casamento no início, cortado o mal pela raiz. Mas achei que fosse uma boa ideia. Agora, pagava por esse lapso.
É quase doloroso perceber o quanto ele se afastou de tudo o que construí por causa de uma mulher. Diana, carente como sempre, era previsível, cedo ou tarde se perderia. César… bem, César herdou a fraqueza da mãe. Sempre foi assim. Sem iniciativa.
Eles falam em polícia, advogados, justiça, como se essas estruturas não fossem feitas de pessoas. Augusto realmente acredita que pode me responsabilizar por alguma coisa. E, como se não bastasse, Isabella está grávida. Primeiro, um neto de um homem qualquer. Agora, outro, de uma mulher que sequer merece carregar o sobrenome da família.
Mas Diana tinha um ponto.
Eu sabia muito bem do que minha filha era capaz quando estava com raiva.
Ela cumpriria a promessa. À risca. Diana, movida por despeito, era perfeitamente capaz de destruir a empresa da família. Um capricho de mulher mimada, que parecia ter esquecido qual era o seu lugar.
— Úrsula!
Bastou chamar. Ela sempre estava por perto quando eu estava em casa.
— Prepare uma mala. Vamos viajar.
— Para onde? — perguntou, cautelosa.
— Diana não disse que eu deveria me afastar? Renunciar? Vou fazer exatamente o que ela pediu, antes que cometa mais um erro. Já falei com o conselho e com os diretores. Não será uma renúncia de fato. Apenas férias.
— Mas… tem certeza? A Diana pode achar que realmente tem algum poder
— Você está duvidando da minha decisão?
Úrsula hesitou por um segundo. Não tinha coragem de me contradizer. Parte de tudo isso também era culpa dela. Era mãe da Diana, tinha criado meus outros dois filhos. Devia ter ouvido minha mãe e me casado com uma mulher do nosso meio social, mantendo-a apenas como amante. Mas ela conseguiu me enganar, engravidou, sabia que um filho bastardo podia virar um escândal.o.
Ainda assim, Úrsula era uma aliada fiel. Nunca questionava minhas ordens. Nem minhas decisões.
— Não, claro que não. Vou preparar as malas.
Saiu apressada.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido