"Isabella"
A nota saiu às nove da manhã.
Li no celular, sentada à mesa da cozinha, enquanto tentava tomar o café da manhã. O texto era curto, direto, frio demais para tudo o que tinha acontecido.
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“A SEG29 informa que Marco Aurélio Salvatore deixará o cargo de Diretor-Presidente para dedicar-se a assuntos pessoais.
Agradecemos por sua contribuição e liderança durante o período em que esteve à frente da companhia.
Assume a posição de CEO Tadeu Albuquerque, que dará continuidade à estratégia e aos projetos em andamento, assegurando a estabilidade e o crescimento da empresa.”
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Li uma vez, depois outra, tentand absorver a informação.
— Você sabia disso? Por que não me disse?
— Me avisaram ontem à noite, você já estava dormindo — Augusto respondeu. — Não houve espaço para perguntas. Ele deixou tudo acertado com o conselho e a diretoria. É um atestado de culpa. Ele sabe que, a partir do momento em que o nome dele surgir oficialmente na investigação, isso respinga na empresa, só está se precavindo.
Eu não acreditava nisso. Não depois de tudo. Marco Aurélio não sentia medo, o motivo da saída devia ser outro. Eu apostaria nisso sem hesitar, mas não disse nada.
Bloqueei a tela do celular e apoiei as mãos na mesa.
Augusto puxou uma cadeira e se sentou à minha frente. Estava exausto. Nós dois estávamos. Desde os atentados, dormir bem parecia um luxo distante, eu acordava no meio da noite assustada e ele acordava junto.
Senti a mão dele tocar a minha, com cuidado, fazendo um carinho lento.
— Você está bem? — perguntou carinhoso.
A resposta não veio fácil.
Eu já tinha começado a terapia com um especialista em trauma. Tomava alguns remédios leves, compatíveis com a gravidez. Mesmo assim, tudo ainda era recente demais. Minha cabeça ainda doía por causa da pancada. Pensei no filho que crescia dentro de mim, completamente alheio a tudo aquilo.
— Está tudo bem — respondi, forçando um sorriso.
Pensar no bebê me trazia um pouco de alívio. Eu já tinha escolhido o cômodo que seria o quartinho, pesquisava decorações, imaginava se seria parecido com Augusto, se seria menino ou menina. Nesses momentos, a ideia de fugir parecia absurda. Cruel.
O celular dele vibrou sobre a mesa.
— A nota já está em todos os portais — disse, depois de olhar a tela.
A realidade, no entanto, sempre voltava.
A avó de Augusto tinha feito uma visita rápida, e a notícia da gravidez já tinha se espalhado. Era inevitável, uma hora todo mundo saberia, ainda assim, eu queria proteger meu filho de tudo. Do mundo. Daquela família.
— Conversei com a Diana — comentei. — Ela disse que o Ícaro está se recuperando muito bem e que em breve deve ter alta. Parecia abatida, mas muito feliz.
A campainha tocou, me fazendo sobressaltar.
Ninguém tinha sido anunciado. Isso significava que era alguém com acesso liberado e poucas pessoas tinham esse privilégio.
Augusto franziu as sobrancelhas e se levantou para atender. Meu instinto foi sair correndo, mas me obriguei a respirar fundo. Se tocou a campainha geral, era alguém autorizado, logo uma pessoa de confiança.
Quando Augusto entrou na cozinha acompanhado de César, não consegui disfarçar o espanto.
Ele estava diferente. Barba crescida, pele visivelmente queimada de sol, roupas mais informais. Em poucas semanas, não lembrava em nada o César de ternos sob medida e gravatas impecáveis. Mas tinha que confessar que o novo visual combinava bem mais com ele, deixando mais bonito e sexy.
Augusto também parecia chocado, não sei se pela mudança ou pelo aparecimento repentino.
— Fiquei sabendo do que aconteceu — César quebrou o silêncio. — Vim ver como vocês estão.
— Por onde você andou? — Augusto perguntou, direto, com a irritação mal disfarçada.
— Augusto… — intervim. — O César não precisa explicar nada agora. Nós estamos bem. Vem, senta, quer um café?

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