Capítulo 148 — Só existe uma força
Henry Reeves
Ter a Sara respirando o mesmo ar que eu naquele trigésimo andar ao longo de todo o expediente foi a melhor coisa que me aconteceu nos últimos meses. Eu sempre me gabei por ser um cara prático, centrado e dono das minhas próprias emoções, mas bastou aquela mulher entrar na minha vida para virar todas as minhas certezas de cabeça para baixo.
Eu descobri, da pior e mais deliciosa forma possível, que sou ciumento pra caralho. Ciumento, territorial e completamente, perdidamente e loucamente apaixonado por cada detalhe daquela mulher.
Ver a Sara desfilando com aquela saia justa e aquele decote elegante pela holding hoje cedo quase me fez perder o juízo. E saber que a partir de amanhã ela estaria na filial longe de mim, recebendo os olhares inconvenientes daqueles engravatados, abalava o resto da minha sanidade.
Faltando apenas alguns minutos para encerrarmos oficialmente o expediente da tarde, Adrian nos chamou até a sua sala. Augustus e eu nos sentamos nas poltronas em frente à mesa de mogno para alinhar os últimos ajustes da minuta de uma contraproposta que enviaríamos para um grupo de investimentos na manhã seguinte.
O trabalho estava praticamente finalizado e o clima entre nós era de alívio e dever cumprido quando a maçaneta girou com violência. Sem bater, sem pedir licença e completamente sem fôlego, William arrombou a porta dupla da presidência.
— Henry! — William disparou, os olhos azuis arregalados sob as luzes frias do teto, as mãos espalmadas no peito como se tivesse corrido uma maratona. — A Sara!
Me levantei da poltrona em um sobressalto automático, sentindo um arrepio gélido estalar na base da minha nuca.
— O que tem a Sara, William?! O que aconteceu com ela?!
— Ela... Ela recebeu uma ligação estranha agora pouco na antessala — William começou a falar atropelando as palavras, o pânico evidente no tom da sua voz. — Ficou branca como papel em questão de segundos, desligou o telefone e saiu correndo feito louca em direção aos elevadores! Eu fui atrás dela, tentei segurar o braço dela e perguntei o que estava acontecendo, ela puxou o braço e disse que precisava ir embora imediatamente! Quando o elevador abriu, ela entrou de costas e apertou para travar as portas antes que eu conseguisse entrar junto!
Eu não esperei ele terminar de formular a frase. Não pensei em absolutamente nada. O instinto puro e primitivo de proteção assumiu o controle absoluto do meu corpo.
Disparei pelo corredor a passos largos e pesados, voando em direção ao elevador de serviço para não ter que esperar o principal retornar ao andar. Quando cheguei ao térreo, saí da cabine e corri até a porta que dava pro saguão.
Atravessei a recepção da holding como um raio, ignorando as saudações dos seguranças e as portas giratórias de vidro. No instante em que os meus sapatos pisaram na calçada da avenida principal, bati os olhos na beirada do meio-fio.
Sara estava parada junto à porta traseira de um sedã prata.
— SARA!! — o meu grito rasgou o ar da avenida com toda a força que existia dentro dos meus pulmões.
Ela virou o rosto na minha direção. Os olhos castanhos estavam inundados de lágrimas, e a expressão no rosto dela era a de quem estava sendo puxada direto para o fundo de um abismo. Pela leitura labial nos lábios trêmulos da minha mulher, consegui identificar perfeitamente as palavras que ela sussurrou para o vento antes de entrar no carro:
“Sinto muito.”
A porta do veículo bateu com um estalo seco. O sedã arrancou no mesmo segundo, cortando a faixa de rolamento e se misturando com a velocidade do fluxo de carros.

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