Capítulo 155 — O Peso da Realidade
Henry Reeves
O silêncio do corredor parecia amplificar o peso de cada batida do meu coração. Olhei para a porta fechada do quarto onde a Sara dormia, sentindo o contraste doloroso entre a paz frágil que tínhamos acabado de construir ali dentro e a tempestade que teimava em não ir embora.
Virei o corpo para o Thomas, cruzando os braços e sentindo a mandíbula travar.
— O que tem o Samuel, Thomas? Aquele desgraçado morreu na ambulância?
Thomas soltou o ar devagar, balançando a cabeça em negativa com calma.
— Não morreu. Mas a situação é muito mais feia do que uma simples surra, Henry. Desce comigo até a biblioteca. O pessoal está lá embaixo esperando a gente.
Não fiz perguntas. Apenas confirmei a tranca da porta para garantir que nenhum ruído acordasse a Sara e segui os passos pesados do Thomas pela escadaria. Quando entramos na biblioteca, Adrian estava de pé perto da janela; Lucas estava sentado na ponta de uma poltrona com os antebraços apoiados nos joelhos; Chen digitava algo com extrema rapidez na tela de um notebook sobre a mesa de centro, e Augustus estava encostado no canto na estante de livros.
Assim que cruzei o batente, Adrian virou o rosto para mim com o cenho franzido.
— Como ela está, Henry?
— Dormindo — respondi com a voz rouca, puxando uma cadeira e me sentando de frente para o Chen. — Exausta, mas dormindo. Agora, pelo amor de Deus, me digam de uma vez que desgraça aconteceu com aquele moleque no hospital.
Thomas puxou uma cadeira ao lado de Chen e tomou a palavra.
— O Andrew acompanhou a ambulância do resgate até o San Francisco General Hospital. O quadro do Samuel é crítico, Henry. Os médicos acabaram de descer da cirurgia de emergência e passaram o boletim para o Andrew.
— Crítico como? — apertei o encosto de couro da poltrona, sentindo uma pontada de raiva misturada com pura exaustão. — O cara tomou uns chutes nas costelas, não foi?
— Não foram só chutes, Reeves — Chen rebateu sem tirar os olhos da tela do computador, sua voz calma e precisa cortando o ar como navalha. — O traficante usou barras de ferro maciço. O Samuel teve afundamento torácico grave com quatro costelas fraturadas. Uma delas perfurou o pulmão esquerdo, causando um pneumotórax hipertensivo grave que quase parou o coração dele na triagem. Além disso, houve laceração no baço com hemorragia interna maciça. Os cirurgiões precisaram fazer uma esplenectomia de urgência. Ele perdeu o baço.
Fechei os olhos com força, passando a mão pelo rosto enquanto absorvia a gravidade daquele boletim.
— E tem mais — Thomas continuou, sem suavizar nada. — O impacto repetido na região lombar provocou uma lesão renal aguda por esmagamento. Os rins dele entraram em falência temporária pelo choque hipovolêmico e pelo excesso de toxinas no sangue. Ele está entubado na UTI, em coma induzido, e vai precisar de sessões de hemodiálise contínua pelos próximos dias até vermos se o rim volta a funcionar por conta própria.
— Puta que o pariu... — soltei um suspiro pesado, encarando o teto de madeira entalhada.

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