Capítulo 64 — Âncoras
Adrian Foley
— Vic... — sussurrei o nome dela, sentindo o meu estômago congelar.
Victoria estava parada exatamente ali no portal da sala de estar, com o rosto pálido e os olhos castanhos arregalados, assistindo àquela cena. E, sem dizer uma única palavra ou me dar qualquer chance mínima de reação, ela girou nos calcanhares e saiu correndo pelo corredor.
Fiz menção de me levantar do sofá no mesmo segundo para ir atrás dela, mas senti as mãos trêmulas da Natalie segurando o tecido da minha camisa preta com uma força desesperada.
— Ade... Quem é Vic? — ela perguntou, a voz abafada pelo choro, erguendo o rosto inchado.
Me separei dela apenas o suficiente para encarar diretamente os seus olhos vermelhos.
— Minha esposa, Nat.
A compreensão imediata surgiu nas feições dela, misturada com o choque.
— A escolhida do tio Victor... Eu ainda não sabia o nome dela. Você nem mesmo se deu ao trabalho de me contar que tinha se casado de verdade.
Sequei as lágrimas persistentes no rosto dela com o meu polegar, tentando acalmá-la.
— Eu vou te contar detalhadamente como tudo aconteceu, prometo. Mas não agora, Nat.
Dei um beijo carinhoso na sua testa e ela se agarrou ao meu peito novamente, soluçando.
— Adrian... Por quê? Me diz por que Deus foi tão injusto comigo e levou a última família que me restava neste mundo?
A abracei com ainda mais força, tentando ser o seu escudo contra aquela dor dilacerante.
— Princesa, eu ainda estou bem aqui com você. O vovô Victor também está e agora... Agora você vai ter a Vic também.
— Eu nem a conheço, e se ela decidir que não me quer na vida de vocês? E se… dessa vez eu ficar sozinha nesse mundo de verdade? — apertei meus braços ao redor dela.
— A Vic jamais te afastaria, Nat. E tenho certeza que vocês serão grandes amigas.
— Você acha mesmo? — senti a vulnerabilidade em sua voz, Natalie ainda era a mesma garotinha de seis anos que abracei diante do caixão dos nossos pais e prometi cuidar e proteger por toda a nossa vida.
— Eu acho meu amor, você vai adorá-la.
Beijei o topo da cabeça dela. Ficamos ali abraçados por alguns longos minutos. No entanto, eu não conseguia evitar que os meus pensamentos voassem direto para a Victoria. Pensando na expressão dos seus olhos ao flagrar a cena, eu a conhecia bem demais para saber que, muito provavelmente, ela havia interpretado toda aquela situação de consolo de forma totalmente errada.
Mas eu sabia que teria tempo para me explicar e alinhar as coisas com ela depois; naquele exato instante de desespero, a minha prioridade absoluta era acalmar a Natalie.
Ouvi o som de passos suaves se aproximando do cômodo. Levantei os meus olhos e vi a Maria entrando na sala, segurando uma bandeja de prata com uma xícara de chá fumegante e ostentando os olhos nítidamente marejados.
— Bom dia, minha princesa... — a governanta disse com a voz embargada, colocando a bandeja sobre o aparador de madeira.
Natalie, ao ouvir a voz acolhedora da mulher que ajudou a nos criar, se soltou do meu abraço, levantou-se do sofá num pulo e correu até a governanta.
— Maria... — ela soltou, jogando-se nos braços da mulher. — O vovô... O meu vovô me deixou para sempre...
Maria a abraçou com toda a força do seu corpo, e a Nat desabou em um choro sofrido.
— Eu sinto muito, minha querida. De verdade... Estou aqui com você — a governanta consolou, afagando os cabelos dela.
Levantei-me do sofá, ajeitei as lapelas do meu paletó preto e caminhei até onde as duas estavam.
— E o vovô Victor, Maria? Onde ele está? — perguntei, o tom de voz baixo.
— Ele acabou de descer e está lá no jardim dos fundos com a Vic — ela respondeu, por cima do ombro da Natalie.
Assenti rigidamente com a cabeça. Passei a minha mão com carinho pelos cabelos desalinhados da Natalie e depositei um beijo suave no topo da sua cabeça.
— Quer ir até lá fora ver o meu avô, Nat?
Ela negou prontamente com a cabeça, encolhendo os ombros.
— Eu não consigo encarar o tio Victor agora, Ade... Não tenho forças para ver a dor dele antes de entender a minha.
Sequei as lágrimas dela mais uma vez com carinho.
— Tudo bem, princesa. Então por que você não toma esse chá que a Maria preparou com tanto carinho e sobe para o seu antigo quarto para descansar um pouco? O velório do padrinho vai começar em breve.

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