"Algumas dúvidas não nascem da mentira. Nascem quando alguém encontra exatamente a ferida certa para tocar." "
A palavra permaneceu suspensa entre elas por alguns segundos, porque, por mais que Dayse quisesse ignorá-la, era impossível não sentir o impacto que ela carregava.
O contrato.
Durante meses, aquela única palavra representou o início de tudo o que havia transformado sua vida, desde o erro milionário que a colocou diante de Edward Fitzgerald até o noivado que começou como um acordo e acabou se tornando algo muito mais complexo, profundo e difícil de definir.
Por isso, no instante em que ouviu Liliana pronunciá-la daquele jeito, com uma calma quase estudada e um brilho estranho nos olhos, Dayse sentiu um desconforto imediato percorrer seu corpo, como se alguma coisa dentro dela reconhecesse que aquela conversa estava prestes a ultrapassar um limite que jamais deveria ser cruzado.
Ela apertou a alça da bolsa com mais força e sustentou o olhar da advogada.
— Eu não sei onde você quer chegar com isso.
O sorriso de Liliana aumentou discretamente, porque aquela resposta apenas confirmou que tinha conseguido capturar a atenção dela.
— Eu acho que sabe, Dayse. Apenas não quer pensar sobre isso.
Ao redor das duas, o departamento jurídico parecia ter entrado em um estado estranho de expectativa silenciosa. Alguns funcionários continuavam diante dos computadores fingindo trabalhar, outros evitavam olhar diretamente para a cena, mas todos permaneciam atentos o suficiente para perceber que aquela conversa estava se tornando algo muito maior do que uma simples troca de provocações.
Liliana também percebeu a atenção crescente ao redor delas e sentiu uma satisfação silenciosa ao perceber que havia conseguido exatamente o que queria, porque seu objetivo nunca foi apenas ofender Dayse ou ferir seu orgulho da mesma forma que já havia feito antes.
Se quisesse apenas humilhá-la, poderia repetir os mesmos insultos de sempre, mas aquilo seria pouco.
O que realmente desejava era atingir algo muito mais importante: a confiança que ainda mantinha Dayse firme ao lado de Edward.
Depois de tantos meses observando os dois, depois de assistir à aproximação deles acontecer diante dos próprios olhos e depois de perceber que Edward jamais voltaria a olhar para ela da maneira que um dia desejou, Liliana havia entendido que não conseguiria destruir aquele relacionamento atacando Dayse diretamente.
Mas talvez conseguisse fazê-lo se plantasse uma dúvida grande o suficiente para crescer sozinha.
Por isso inclinou levemente a cabeça e voltou a falar com uma tranquilidade que parecia ainda mais perigosa do que qualquer grito.
— Me diga uma coisa, Dayse... você nunca achou curioso como tudo aconteceu exatamente da maneira que Edward precisava que acontecesse?
O desconforto que já existia dentro de Dayse aumentou imediatamente.
Ela sabia que Liliana estava tentando provocar uma reação, mas a convicção presente naquela voz fez seu estômago se contrair.
— Você está mentindo.
— Estou?
Liliana soltou uma pequena risada.
— Talvez sim. Talvez não. Mas pense, Dayse.
Ela se aproximou mais um pouco.
— Você realmente acredita que Edward Fitzgerald, um homem que controla uma corporação desse tamanho, simplesmente deixaria um erro administrativo milionário acontecer bem debaixo do próprio nariz?
Dayse sentiu o sangue desaparecer do rosto.
— Você não sabe do que está falando.
— Sei o suficiente.
— Não sabe.
— Sei que Edward sempre foi bom em conseguir o que queria.
A frase entrou nela como uma lâmina.
Liliana percebeu a reação mínima, o piscar mais rápido, os dedos apertando a bolsa, os ombros tensionando, e atacou exatamente ali.
— Ele queria você.
Dayse sentiu o coração falhar.
— Cala a boca.
— E quando percebeu que você jamais aceitaria ficar com ele espontaneamente, surgiu uma história perfeita demais, não foi?
A voz dela se tornou quase doce.
— Um erro milionário em troca de um noivado de mentira.
Dayse balançou a cabeça, tentando se agarrar a alguma certeza, mas a mente começou a revisitar cada detalhe do início, cada frase de Edward, cada imposição, cada cláusula, cada vez que ele agiu como se já soubesse exatamente onde queria chegar.
— Não.
A palavra saiu baixa.
Liliana sorriu, satisfeita ao perceber a dúvida.
— Você acha que foi escolhida porque era especial?
Dayse ergueu os olhos.
— Eu não vou ouvir isso.
— Mas deveria.
Liliana deu outro passo.
— Porque eu conheço Edward Fitzgerald há anos. Conheço o jeito como ele olha para algo quando decide que aquilo será dele. Conheço os jogos, as distrações, as obsessões temporárias e a forma como ele perde o interesse quando finalmente consegue o que queria.
A respiração de Dayse começou a ficar irregular.
— Você está tentando me machucar.

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