Adam
Dois meses depois
Eu me movia com precisão e calma, mesmo sem sentir nenhum desses dois estados dentro de mim. Às vezes, porém, é preciso saber quando ceder para conseguir ganhar terreno.
Na reunião do reino dos lobisomens, um tema desagradável surgiu:
— Soubemos que a Luna Eliz não conseguirá ter mais filhos, Adam. Quando começará a procurar sua segunda esposa?
Outro macho fez a proposta que eu já recebia quase todos os dias:
— Tenho uma filha em idade de casamento… poderíamos marcar uma visita, Supremo?
Ao que parece, alguma serva atrevida abriu a boca e a notícia se espalhou como fogo pelo mundo sobrenatural: um Supremo sem herdeiros.
— Obrigado pela oferta. Mas ainda é muito cedo.
Os machos começaram a protestar:
— Aproveite que ela está ocupada com os filhotes pequenos e não poderá causar problemas.
Um desconforto crescia no meu peito, e eu ainda não sabia explicar o motivo.
Continuei a reunião, apresentando o relatório no projetor, mostrando o quanto tinha multiplicado o investimento que o Rei colocara em minhas mãos. Os números eram exorbitantes, e isso calou os lobos ao meu redor. O Rei, no fim da mesa, parecia tenso — mas não era a hora para distrações.
Quando terminei, respondi às perguntas dos investidores com objetividade. Depois todos saíram, e eu juntava minhas coisas.
O olhar fixo de Lucien sobre mim nunca era sinal de algo bom.
Guardei na maleta os documentos do balancete e me preparava para deixar a sala.
— Adam, até quando acha que vai segurar isso?
— Achou algum erro no meu trabalho? — franzi a testa.
— Hoje você foi incrivelmente competente.
— E não sou competente normalmente?
— É sim. Mas hoje você foi tão detalhista que até uma ameba entenderia.
— Então não achou a rentabilidade boa?
Minha mãe passava quase todo o tempo com Aquiles nos braços. Artemísia ficava tranquila no berço durante o dia, mas eu havia notado que, à noite, quando Adam voltava do trabalho, ele dava mais carinho a ela do que ao irmão.
— Vamos levar os bebês na médica, e depois você passa na sua revisão — minha mãe sugeriu.
Eu já estava organizando as bolsas e documentos — sair com gêmeos era uma verdadeira odisseia.
Adam chegou da reunião para a qual vinha se preparando havia dois dias, enterrado em pilhas de gráficos. Eu quase não o vi nesse período, apenas levei café e lanches. Sei que ele quer ser o melhor Supremo possível, para que ninguém tenha motivo para questioná-lo — ou falar sobre herdeiros.
Quando fui procurá-lo, o encontrei sentado na poltrona da biblioteca. Sua postura parecia desmoronada. Uma das mãos segurava um copo com bebida forte, a outra apoiava a cabeça.
— Quer companhia, Adam?
Seus olhos brilharam ao me ver, e sua cabeça caiu para trás, relaxando, deixando à mostra seu pomo de Adão.
— Pela deusa… — murmurou, levantando-se. Em seguida começou a caminhar até a porta. — Eu vou dar uma corrida pelo território e já volto, tá?
Ainda não tínhamos nos deitado juntos desde o parto. Não que eu não quisesse… Mas parecia que ele estava fugindo de mim.
Como dizem os humanos: fugindo como o diabo foge da cruz.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...