Gustavo
Respirei fundo e contei até mil. O que aconteceu para ela vir aqui? Tamborilei a caneta na mesa algumas vezes, enquanto a faxineira recolhia os cacos do vidro daquela premiação que eu havia arremessado. Até hoje nenhuma fêmea havia me encostado na parede como ela faz constantemente. Tomara que a deusa não permita que minha neta Artemísia seja igual.
Peguei o telefone e disquei para alguém improvável — afinal, ela me deu algo raro: dois herdeiros. Ao contrário do que ela imagina, Artemísia será minha primeira escolha.
Chamei algumas vezes, até que ele atendeu.
— Fala, Gustavo.
— Quero conversar pessoalmente com você.
Marquei no mesmo restaurante da esquina onde encontrei Eliz pela primeira vez. Sorri sozinho e pedi um bife orelha-de-elefante, lembrando de como ela comia — com avidez, grávida dos meus netos. Aquele dia foi um presente da deusa para que eu continuasse.
Senti um pigarro; Adam havia chegado e me observava.
— Senta. — indiquei.
Ele se sentou em silêncio.
— Como você sabe, eu perdi meu filho — ele ficou rígido; o olhar vasculhou o restaurante em busca de armadilhas. — Acontece que você segurou a espada que o cortou, mas não foi ali que ele morreu.
Meu prato chegou; Adam pediu apenas uma bebida, que nem tocou.
— Meu filho morreu por dentro — comecei, tentando controlar a voz. — Organizou empresas, alcateias, contratos; deixou o exército com a hierarquia definida. Terminou um relacionamento com uma fêmea que via esporadicamente...
— Eu não sou psicólogo, Gustavo. — Ele cortou, seco.
Ai, ai. O que eu não faço pelos meus netos.
— Eliz tem o mesmo olhar. Eu não percebi no Gael, porque lobos fortes, criados para dar conta de todos, não entregam suas fraquezas aos outros — continuei. — Mesmo sangrando por dentro, não mostram. Não deixam suas obrigações, nem as colocam nos ombros alheios; parecem inabaláveis e poderosos. Meus netos já não têm pai; odiaria que também não tivessem mãe.
Bem minha parte estava feita, ele tinha sido avisado.
Eu teria dado o mundo se alguém tivesse me alertado a tempo.
**KAIA
— PLAP! — outro tapa acertou meu rosto. Senti o gosto do sangue escorrer pelo canto da boca.
— Como você ousou perder todas as regalias que tinha? — meu pai berrou. — Foi criada como filha de Supremos. Como não conseguiu um macho de alto escalão?
— Eu amo o Adam, pai. — falei, desesperada, temendo a punição.
— Amor? Pelo quê? — ele me puxou pelos cabelos para fora da tenda. — Você rejeitou seu companheiro; o que quis foi status.
— Eu não te quero — falei, palavra por palavra, para que ele entendesse.
— Eu sei disso — respondeu, os olhos escurecendo.
Houve um som seco: minha roupa se rasgou. Lágrimas escorreram em cascata pelo rosto.
Ele me empurrou para a cama. Apoiei-me com as mãos; senti minha intimidade exposta, vulnerável. Supliquei:
— Por favor, não faça isso, Caspian.
Ele se posicionou atrás de mim. A dor veio como brasa. Tentei resistir, mas suas mãos seguravam minhas costas com força.
— Você me pertence — disse ele, firme. — Sempre pertenceu.
Começou a forçar-se contra mim. Dói demais. Ouço o lobo dele na superfície, crudeza e fome.
— Eu, Kaia, te rejeito, Beta Caspian — tentei dizer com a voz falha.
Ele parou por um momento, depois recomeçou. Suas mãos me prendiam; tentei me debater inutilmente. Ninguém interveio. Enquanto aquilo acontecia, a culpa me consumia — maldita Eliz. Tudo isso é culpa dela.
Então piorou, sua mão puxou meu corpo de encontro ao dele e seus dentes encontraram meu pescoço por trás, ejetando sua essência.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...