Artemísia
— Não foi nada. Eu esbarrei...
O olhar furioso dele se volta imediatamente para Aquiles, que levanta as mãos em um gesto de rendição.
— Ei! Eu não tenho nada com isso. Foi o Gustavo.
Felipe sai imediatamente, marchando a passos largos, com uma expressão assassina, em direção ao escritório. Corro atrás dele, mas sou impedida pelos braços de Aquiles, que me seguram como uma muralha.
— Na-na-ni-na-não. — ele diz, com uma expressão divertida.
— Eles vão se matar lá em cima! — falo, indignada.
— E daí? Você se lembra da primeira gravidez que a mãe perdeu por tentar separar machos em briga? — ele responde, me arrastando para dentro do escritório e girando a chave na porta. — Já chega de bastardos nessa família.
Um estrondo ecoa do andar de cima. Seguido de gritos das fêmeas.
— Eu não estou grávida, Aquiles.
— Pelo que sei. Pode estar. Já dormiu com ele quantas vezes? — ele pergunta, caminhando até o frigobar e pegando dois refrigerantes e uma barra de chocolate. — Toma.
Ele me entrega, e fico parada, ponderando o argumento. Enquanto abro as embalagens.
— E cá entre nós, o Gustavo bem que mereceu.
Aquiles se j**a na cadeira, relaxado.
Comemos ao som da pancadaria lá fora.
— Agora, querida irmã, como conseguiu tirar o juízo do Gustavo desse jeito? O que anda fazendo naquele computador?
Não sou bem eu que anda tirando o juízo dele não.
O barulho lá em cima finalmente cessa. Graças a Selene.
— Agora não, Aquiles. Quero saber se fiquei viúva antes mesmo da cerimônia. Abre logo essa porta.
— Certo. Mas voltaremos a esse assunto, maninha.
Ele abre a porta com tranquilidade.
Corro para fora, preocupada com Felipe; e também para fugir das perguntas de Aquiles.
Encontro os dois na sala, cada um encostado em uma ponta do sofá, amarrotados e exaustos.
Vanessa e Liliane observam de longe, com expressões assustadas.
— O que vocês dois estão fazendo? Parecem filhotes em treinamento... — Adrian os repreende.
— Ele esbofeteou minha Luna. — Felipe aponta para Gustavo, ainda irritado.
Adrian gira o corpo e me olha com cautela.
Sento no colo de Felipe e examino seu lábio superior cortado.
— Eu estou bem. Foi só um tapa. Já me acertei com o avô.
— O que não sabemos é como tudo começou... — Aquiles diz, estreitando os olhos.
— Foi uma encomenda minha que chegou. Entregaram a ele por engano. Só discutimos e perdemos o controle.
Lanço um olhar de aviso para Gustavo que diz: Não diga nada.
— Claro... é que eu sou conservador, sabe? — ele responde.
Ao seu lado, Lucila limpa o supercílio sangrando dele, com um sorriso quase imperceptível.
Conservador... sei.
— Olhem só. A Lucila tem um talento natural para cuidar de feridos.
Todos voltam a atenção para ela.
— Que é isso, Luna? Assim me deixa envergonhada. — ela diz, corando.
— Ah, querida, não seja modesta. Todos estamos vendo, não é, Vanessa?
Vanessa hesita por um instante, mas entra no jogo.
— Claro. Ela poderia ser uma excelente enfermeira. Ou médica.
Abro um sorriso genuíno.
— Acredita que estamos sem curandeira em Garras de Gelo? Já sei. Quando vocês voltarem para o Norte, levarão Lucila com vocês. Vou pagar todos os estudos dela. Assim teremos uma nova curandeira aqui.
Lucila congela.
— Eu... acho que teria dificuldades, Luna. Nunca frequentei uma escola normal. Fui ensinada em casa pela minha mãe.
— Tadinha... Mas Vanessa vai conseguir uma professora dedicada lá no Norte. Será sua primeira tarefa como Luna, cunhada.
Vanessa ergue o queixo, confiante.
— Eu aceito o desafio. Tenho uma fundação voltada à educação dos jovens. Sempre foi importante para mim.
Percebo o orgulho no olhar de Adrian.
— Então está decidido.
O clima começa a se suavizar.
Sinto orgulho do meu feito. Lucila terá proteção e ensino em um lugar confiável.
Embora, pelo olhar assassino que ela me lança não esteja nem um pouquinho animada , finjo não perceber sua fúria.
Já Gustavo carrega no rosto uma expressão de alívio.
Talvez reconhecer sua segunda chance em alguém tão jovem o assuste.Ou talvez seja apenas medo. As desilusões pela sua vida tinham sido enormes.
As emoções ressurgem nele como em um garoto.
— Lucila, vá falar com seus pais. Preciso conversar com eles. Você tem poucos dias para organizar sua mudança.
Ela passa por mim de cabeça baixa, sem se despedir.
— Foi bonito o que fez por ela. Com o tempo, ela entenderá. — Vanessa diz, gentil.
— Assim espero.
Volto-me para Felipe.
— Vamos, companheiro. Precisamos conversar.
Puxo sua mão e o levo até meu quarto.
Ele se senta na cama.
Tiro sua camisa, procurando ferimentos escondidos.
Meu olhar desliza por seu corpo definido, pelos braços fortes, pela aura protetora que o envolve.
Há hematomas, mas nada grave.
Ele me observa em silêncio.
— Obrigada por ter me defendido.
— É minha obrigação. Sou seu companheiro.

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...