Artemísia
Pela primeira vez, desejei ter puxado à minha mãe e me tornado uma guerreira.
Sentei-me em um canto da tenda enquanto uma jovem aprendiz passava uma pomada de cheiro forte em minhas costas. Do outro lado, a curandeira despejava um líquido sobre as costas dilaceradas dele, com o intuito de retirar o acônito.
— Luna, passe o emplastro nele. Vou buscar uma beberagem que o fará dormir apesar da dor.
Ela saiu levando a ajudante, que já havia terminado comigo.
Apontou para o pote sobre um pequeno móvel, ao lado de uma bacia cheia de gazes ensanguentadas. Fiz o que me mandara, tentando ser o mais delicada possível.
— Falou sério sobre morar aqui? — sua voz rouca me pegou de surpresa.
— Sim. Não quero que culpem você novamente. Me desculpe… eu me arrependo muito pelo que fiz.
Ele permaneceu calado. Um silêncio constrangedor se instalou entre nós.
— E sobre ter um herdeiro?
A curandeira retornou antes que eu pudesse responder.
Com a beberagem, ele adormeceu; o que era ótimo para sua recuperação.
Aquiles chegou depois do amanhecer. Cruzou os braços e me observou. Seu olhar de predador deixava claro que sua raiva ainda não havia passado. Aquiles tinha esse traço: tentava ser polido, mas, quando a fúria tomava conta, seu lobo ansiava por derramar sangue sem limites, ouvi gritos até agora pouco, e já estamos perto do amanhecer.
— Mandei preparar um quarto para os dois lá em cima.
— Eu não quero ficar no mesmo quarto com ele — falei pelo nosso elo mental, sem querer magoar Felipe.
— Eu não entendo. Você se enfiou na frente de um chicote de prata banhado em acônito para proteger o beta.
Continuamos conversando pelo elo.
— Não me entenda mal… eu não quero o mal dele. É só que…
— Que você não o ama. — Meu corpo enrijeceu.— E pretende deixar sua vida estagnada por Aurin até quando? Ele espera pela companheira, Artemísia. E essa não é você.
Ouvir aquilo doeu, embora eu já estivesse cansada de saber.
Vacilei. Aquilo me ataria de forma irreversível.
— Temi… — Aquiles fez um pedido silencioso.
Enxuguei as lágrimas com as costas das mãos e me concentrei em minha loba.
Felipe continuava tremendo. Deixei minhas presas de guerra surgirem e as cravei na carne macia de seu pescoço.
Minhas presas escorreram dentro dele, liberando a toxina que faria seu lobo se vincular à minha loba como um lobo escolhido. Minha loba encontrou o problema; e não era o acônito. O lobo dele estava desistindo de procurar uma companheira, magoado pela nossa recusa.
Ela mergulhou profundamente em sua alma, lambendo suas feridas, assegurando-lhe que não estaria sozinho a partir de agora. Puxou-o de volta.
A fraqueza tomou meu corpo. Senti-me cair, ouvindo a voz de Aquiles em minha mente.
— Vai ficar tudo bem, minha irmã…
Mas ambos sabíamos que isso era algo que ele não tinha como consertar.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...