Artemísia
Após a reunião com as fêmeas, sigo em busca do escritório do meu avô. Sei que ele está obviamente irritado, mas não chegou a trancar a porta. Dou duas batidas.
— Entre.
Ele está debruçado sobre uma pilha de papéis.
— Olá, vô — digo, sentando-me à sua frente e cruzando as pernas.
Observo minha linhagem com atenção, reconhecendo minha aparência na dele. A deusa havia caprichado: um macho viril, forte e implacável. Loiro, atlético. Aquiles é praticamente uma réplica sua; se alguém dissesse que ele era nosso pai, ninguém questionaria.
— Como foi a reunião?
— Bem. Estou aguardando a resposta das fêmeas.
Falo um pouco entediada, já prevendo o resto do meu dia dedicado a trabalhar nas soluções conforme as respostas chegassem.
— Passei o dia verificando os anciãos que seu irmão chicoteou. Como estão suas costas?
Parecia genuinamente interessado. Estranhei.
— Bem. Eu me curo rápido.
Ele balançou a cabeça concordando.
— Fiquei sabendo que você deixou sua marca em Felipe hoje. Muito bem.
Ignoro. Fugi de Felipe como da peste depois da reunião.
— Marque uma reunião com os machos disponíveis pela manhã, por favor.
Ele arqueia uma sobrancelha, percebendo minha mudança repentina de assunto.
— Não acho que seja uma boa ideia lidar com eles agora. Ainda estão chateados.
— Por isso mesmo estou aqui — inclino o corpo para a frente, como se fosse contar um segredo. — Quero aproveitar a ausência daqueles velhos decrepitos. Sem eles, será muito mais fácil engolirem as mudanças que precisam ser feitas aqui.
Ele larga a caneta e se encosta na cadeira, um vinco surgindo em sua testa, contrastando com as laterais prateadas do cabelo.
— Em dois dias você acha que já sabe tudo sobre Garras de Gelo, Artemísia?
Pergunta com tranquilidade, apoiando os cotovelos na mesa e o rosto entre as mãos.
— Me dê algumas horas e saberei.
Levanto-me. Quando coloco a mão na maçaneta, ouço a pergunta mais constrangedora entre nós.
— Não vai perguntar como era seu pai?
Paro por um instante. Abaixar a cabeça parece inevitável. Querer saber sobre ele me faz sentir como se estivesse traindo minha mãe de alguma forma.
— Não há necessidade.
— Certo.
Que a Deusa me ajude.
Tranco-me no escritório, conferindo e digitalizando todas as respostas. Tudo ali é arcaico, e mal posso esperar para ligar meu computador em um espaço só meu.
Ouço uma risada baixa. Olho para a porta, surpresa ao ver meu avô trazendo uma bandeja de comida.
— Pelo jeito, quando pega algo para fazer, é como eu: não larga o osso.
Ouvi-lo falar assim, descontraído, me pega de surpresa.
Aceito a comida. Meu estômago realmente estava roncando.
Mais tarde, minhas costas estavam mortas. Eu estava cansada e sonolenta, mas havia cruzado todos os dados. Quando o resultado aparece na tela, meu avô fica desapontado. Se seguirmos por mais duas gerações assim, teremos lobos poderosos… e ninguém para quem deixar a herança financeira e genética.
Subo as escadas me arrastando em silêncio até meu quarto. Tomo um banho morno, visto o pijama e já estou bocejando quando ouço dois toques leves na porta. Fico imóvel, esperançosa de que ele desista.
— Eu sei que você ainda está acordada. Abre essa porta de uma vez.
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