Eliz
Desliguei o telefone.
Não sei o que me deu para achar que o convenceria a me aceitar.
Nara estava entristecida, mas resoluta. Ela criou uma bola de energia em volta dos filhotes.
Segurei com força o telefone e entrei no carro.
Fomos para São Paulo — uma cidade enorme e populosa.
Os lobisomens normalmente queriam distância de lugares assim.
Sem espaço para correr, sem o consolo da lua.
Ficar trancada sentindo o chamado e não poder se transformar era uma agonia.
Olhei ao redor, o lugar estava cheio de humanos, e o pânico se instalou.
Eu não podia ir a um hospital humano.
Que Selene me ajude.
Já estive aqui algumas vezes, em passagens rápidas, mas nunca imaginei morar neste lugar.
Os carros passando depressa, as buzinas estridentes, o barulho da cidade incomodavam minha audição apurada.
Os diversos cheiros humanos castigavam meu olfato sensível.
— Caso precisar, me ligue. Eu vou indo. — Eron falou, enquanto descia uma mala e entregava a Amara.
Subimos para o décimo oitavo andar.
Nosso apartamento tinha uma vista de tirar o fôlego.
Já que ficaríamos presas, que fosse com conforto.
A decoração moderna e minimalista fora escolhida por mim e pela minha amiga Lívia.
— Vou fazer alguma coisa pra gente. Já vai dar meia-noite e você não comeu nada. Faz mal pro filhote — disse Amara, indo para a cozinha.
Eu sequer tinha lembrado disso até agora.
Teria que prestar atenção nos horários das refeições.
Amara saiu do conforto da matilha e estava entre os humanos por minha causa.
Não queria abusar da boa vontade dela.
Ela preparou um sanduíche reforçado, com fatias de carne.
Olhei sem fome alguma, mas não faria essa desfeita, então me esforcei para comer.
— Podemos ir ao shopping comprar roupas pra você amanhã — sugeriu.
— Tá bom. Tem um parque onde as pessoas se exercitam em torno de uma lagoa linda. Pela manhã podemos dar uma esticada nas pernas humanas, já que as de loba não usaremos tão cedo. — Revirei os olhos.
Amara deu um sorriso gentil.
— Tudo passa. Logo, logo sua maré ruim vai ter passado também.
Por algum motivo, eu não conseguia questionar as palavras dela.
Apesar de muito jovem, Amara já tinha sofrido bastante.
— Se você diz... Mas me fala de você um pouquinho também.
— O meu companheiro foi obrigado pelo conselho a aceitar minha rejeição.
Agora estou há um ano com um humano. Ele não sabe que eu sou uma loba ainda.
— Tem certeza que ele não sabe? Um ano é bastante tempo.
Havia uma pequena classe de humanos mais letais: os caçadores.
Eles conhecem o mundo que habitam e nos caçam.



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Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.