Eliz
Eu me virei e saí de casa; precisava de um ar fresco para respirar. Embora não pudesse me transformar por causa da gravidez, o ar livre ainda era o meu melhor lugar.
Inalei profundamente e me conectei com Nara. Por que sinto a sua instabilidade?
— O que está acontecendo, humana? Nós temos companheiro.
Minha loba estava revoltada com o meu corpo humano, que queria o calor de outro macho.
— Ele não nos quis e você sabe bem o motivo.
Eu já tinha explicado mil vezes e, ainda assim, ela tentava defender o macho que, neste momento, deveria nos amparar e fornecer a energia que tanto precisamos.
— Ele disse que nos quer quando tiver os filhotes... — sussurrou ela, fraca, desesperada pelo seu companheiro de alma, pelo lobo de Adam, por Igor.
Agora eu entendia: Atenor, companheiro de Ania, vivia transformado perto dela como um cão doméstico — ele permitia que seu lobo se unisse a Ania também.
Controle os pensamentos, Eliz. Calendi em nenhum momento deu ousadia a esses pensamentos. A gravidez está te confundindo — acorda!
Como se sentisse meu dilema, vi Calendi colocando a cabeça para fora da porta de casa, à minha procura.
— Venha, já coloquei nosso jantar na mesa, Eliz.
— Está bem.
Nara se escondeu tão fundo em minha mente que eu quase não sentia ter uma loba dentro de mim. Só faltava essa agora.
— Amanhã as suas roupas fae chegarão. Damos uma passada no meu escritório do conselho e, depois, que tal jantar fora? Não é saudável para uma jovem grávida ficar trancada o tempo todo.
— Obrigada, realmente. — Dei-lhe um belo sorriso. Desde que caí de paraquedas na casa dele, só sei dizer “obrigada”; ele sempre cuidou com zelo das minhas necessidades.
Comi como se não houvesse amanhã — a comida dele é deliciosa, e parece que sempre estou esfomeada ao seu lado.
— Dessa vez eu lavo a louça. — Ele abriu a boca para protestar, mas fui mais rápida: peguei tudo da mesa e levei à pia, sentindo-me vitoriosa por ganhar dele dessa vez.
“Toc, toc, toc.” As batidas soaram tímidas na porta; ele foi atender. A fada que eu vira à tarde entrou como um raio, procurando-me com os olhos.
Perguntou com voz melodiosa:
— Procure-me quando pudermos conversar a sós.
Ela deu as costas, furiosa. Ele ficou ali, com a mão na maçaneta, estático, olhando até que ela se perdesse na escuridão da noite.
E eu fiquei chocada ao ouvir o Senhor do Fogo afirmar que ela o trocara por outro.
— Não leve ela a sério. — ele finalmente acordou do seu transe— Ela não quer ficar comigo, só não quer ninguém perto também.
— Como uma fêmea em sã consciência recusaria você, Calendi ? — falei sem pensar em como soaria, e logo tentei concertar.— Quero dizer alguém que já tivesse um relacionamento com você...
Seus olhos se estreitaram e iluminaram. Ele se aproximou de mim.
— Agradeço por não falar que seus filhos não são meus.
— Imaginei que deveria ter um motivo... — Falei baixinho. — Não se importa que todos em Arcádia ache que meus filhotes são seus?
Ele chegou perto, cruzou os braços.
—Não. Somos adultos. E o que decidirmos daqui para frente de comum acordo não importa a ninguém. Testemunhas para quê? Não é verdade? Ou você ainda deve lealdade a alguém, Eliz?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...