“O perigo não está em querer. Está em perceber que não há mais vontade de recuar.”
Havia noites em que Damian Cavallari não precisava de inimigos.
Bastava o silêncio, o álcool mal digerido e a consciência exata de que algumas vontades, uma vez despertas, não aceitam mais o retorno ao ponto de origem.
Na calada da madrugada, a mansão Cavallari estava mergulhada em um silêncio pesado, daqueles que não chegam a ser paz, apenas uma pausa. A única coisa que rompia a quietude era o som baixo e perfeitamente calibrado de um pop alternativo contemporâneo, fluindo de uma caixa de som embutida quase invisível, preenchendo o ambiente com acordes minimalistas e elegantes.
Damian estava no sofá, largado de um jeito que raramente se permitia durante o dia.
Vestia apenas uma calça de moletom cinza, usada para dormir, caída de forma preguiçosa nos quadris, e nada mais. O torso nu revelava o cansaço acumulado em músculos relaxados pela primeira vez em horas, talvez dias. Os cabelos castanhos estavam bagunçados, desalinhados pelo sono interrompido e pelo leve torpor do álcool que ainda aquecia o sangue, não o suficiente para derrubá-lo, apenas o bastante para baixar defesas que ele normalmente mantinha altas demais.
Uma garrafa de uísque repousava sobre a mesa baixa, quase cheia, como se ele tivesse parado mais por esquecimento do que por decisão.
Damian encarava o nada, ou melhor, memórias.
A música seguia, uma daquelas canções que carregam uma melancolia suave, quase nostálgica, falando de noites longas, escolhas erradas e amores que nunca foram simples. Ele fechou os olhos por um instante, deixando o som atravessá-lo, como se fosse mais fácil sentir do que pensar.
Foi então que Elena acordou.
O relógio marcava pouco depois das três da manhã quando ela abriu os olhos, sentindo a garganta seca demais para ignorar. Levantou-se devagar, ainda meio envolta pelo sono, e vestiu o robe fino de seda preta sobre a camisola do mesmo tom, deixando o tecido escorrer pelo corpo com uma elegância.
Desceu as escadas em silêncio, os pés descalços tocando a madeira fria, guiada pela necessidade simples de um copo d’água, mas não chegou à cozinha.
O som da música a deteve no meio do caminho.
Ela diminuiu o passo ao reconhecer a melodia antes mesmo de localizar a origem do som. Um arrepio suave percorreu-lhe os braços. Não era exatamente aquela música específica que ela conhecia, mas a sensação que vinha junto com ela, o tipo de canção que se associa a momentos marcantes, aqueles que não passam com o tempo e acabam ficando presos na pele, misturados à memória e ao corpo.
Elena seguiu o som e parou na entrada da sala e o viu.
Damian estava sentado no sofá, com o corpo grande afundado nas almofadas, uma perna dobrada, o braço jogado sobre o encosto, a cabeça levemente inclinada para trás. A luz fraca de um abajur no canto desenhava sombras suaves sobre o peito nu, realçando a linha do maxilar, a barba por fazer, a expressão distante e perigosa.
Não era o CEO implacável do dia. Era o homem real, vulnerável o bastante para não fingir.
O coração de Elena acelerou sem pedir licença.
Ela ficou ali por um segundo a mais do que deveria, observando-o em silêncio, como se tivesse medo de quebrar algo frágil demais para ser tocado. A música continuava baixa, íntima, preenchendo o espaço entre eles.
Até que Damian abriu os olhos, não se assustou, era como se soubesse que ela estava ali antes mesmo de vê-la.
Os olhos azuis se ergueram devagar e encontraram os dela, verdes, atentos, presos nele como se não houvesse mais nada naquela casa inteira, fazendo o tempo desacelerar. Um sorriso mínimo, quase preguiçoso, curvou os lábios dele, não de ironia, mas de reconhecimento.

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