“Algumas formas de amor não sabem pedir perdão. Elas apenas cuidam.”
Elena Rossi
Há desejos que não começam no corpo. Começam no silêncio. Naquilo que não é dito, mas observado. No modo como alguém permanece quando poderia simplesmente ir embora.
Eu quase não participei da conversa.
Estava ali, sentada à mesa de jantar, mas com os sentidos todos deslocados, como se meu corpo estivesse em outro plano, reagindo a estímulos que não tinham som, nem palavra.
Sophia estava ao meu lado, animada para alguém que havia passado o dia inteiro descobrindo um mundo novo. Gesticulava, ria alto, misturava histórias, enquanto Beatrice a escutava com atenção, sorrindo como quem saboreia algo raro.
— E depois a gente correu, tia Bia, correu MUITO — Sophia dizia, com os olhos brilhando. — E a Lena quase caiu, mas eu segurei ela!
— Que heroína. — Beatrice respondeu, tocando de leve a mão dela.
Eu sorri, mas meu foco estava em outro lugar.
Damian…
Ele não falava muito. Apenas observava. Eu conseguia sentir os seus olhos sobre mim, mesmo sem olhar para ele.
Quando levantei os olhos, encontrei os dele já fixos em mim.
Era como um chamado silencioso que fazia meu corpo reagir de forma quase indecente a tudo isso, como uma simples troca de olhares podia mexer tanto comigo dessa maneira?
Eu queria me perder naqueles olhos azuis. Queria que ele me tomasse em seus braços e me beijasse com intensidade. Queria sentia o toque de seus lábios sobre meu corpo, me entregando aquelas sensações que só ele provocava.
Meu estômago se contraiu de um jeito lento, profundo. O desejo tomou conta de cada célula do meu corpo. Precisava me controlar.
Desviei o olhar.
Respirei fundo, e tentei me concentrar no som dos talheres, no cheiro da comida, na presença da minha irmã. Mas bastou um segundo de distração para sentir de novo a intensidade daquele olhar.
Quando desviei os olhos novamente para ele, Damian permanecia me encarando como se me segurasse sem me tocar.
Meu corpo respondeu antes da razão. Um calor surgiu no baixo no ventre, e senti minha intimidade umedecer.
Deus como eu o queria. Mas permaneci sentada tentando controlar o misto de sensações que aquele olhar provocava.
Sophia começou a diminuir o ritmo. Primeiro, tropeçou nas próprias palavras. Depois, passou a rir sozinha de frases que não terminavam.
— E aí… aí… — ela franziu a testa, pensativa. — Eu… eu…
Beatrice inclinou a cabeça, observando-a com carinho.
— Acho que tem uma mocinha aqui que finalmente se rendeu. — disse, divertida.
Sophia piscou devagar. Uma vez, duas. Seus olhinhos verdes quase se fecharam por completo e senti o meu peito aquecer com essa cena.
— Acho que já deu por hoje, Sophi. — falei com um sorriso. — Vamos dar boa-noite.
Ela abriu a boca para protestar.
Damian era um verdadeiro contraste do homem que me arrematou naquele leilão. O homem que me tratou como uma peça comprada, como um item numerado entre outros, que avaliou meu corpo com o mesmo distanciamento com que avaliaria uma obra rara. O homem que desprezou a medalha da minha mãe, não apenas o objeto em si, mas tudo o que ele carregava: memória, origem, afeto, a última coisa sagrada que eu tinha para oferecer. Naquela noite, ele me fez sentir pequena, deslocada, quase invisível dentro da própria pele, como se meu valor estivesse restrito ao silêncio obediente e à utilidade que eu pudesse ter.
Mas o homem que eu via agora não combinava com aquela lembrança.
Esse Damian cuidava em silêncio. Não perguntava como eu estava, ele observava. Não prometia proteção, ele executava. Foi assim com Sophia, assumindo responsabilidades que não eram suas, resolvendo médicos, horários, remédios, decisões difíceis, como se amar também fosse um tipo de estratégia que ele dominava melhor do que admitia. Foi assim comigo, quando me deu espaço em vez de ordens, quando respeitou minhas pausas, quando me ofereceu segurança sem nunca exigir gratidão.
Ele nunca pediu perdão pelo leilão. Nunca tentou justificar. Mas cada gesto contido, cada escolha prática, cada cuidado feito longe dos olhos do mundo parecia uma forma silenciosa de reparação. Como se Damian Cavallari não soubesse pedir absolvição em palavras, apenas em atitudes.
E talvez fosse exatamente isso que mais me desarmava: o fato de que o homem que me comprou e o homem que me protegeu coexistiam no mesmo corpo. E que, contra toda lógica, era o segundo que agora me fazia hesitar… e sentir.
Sophia puxou um pijama de panda e ergueu como um troféu.
— Esse.
Ajudei-a a vestir. Depois deitou-se na cama, já rendida, com os cílios pesados, e o corpo pequeno se aninhando ao meu.
Deitei ao lado dela. Envolvi-a com o braço. Mas minha mente… estava em outro andar da casa.
Em outro corpo. No jeito como Damian me olhava. Na tensão que ficou suspensa entre nós, inacabada. Na sensação absurda de que eu precisava dele tanto quanto precisava manter distância.
Sophia dormia tranquila em meus braços, alheia ao peso das escolhas que adultos carregam em silêncio. Eu fechei os olhos acreditando que aquela noite terminaria ali, suspensa, contida, sem consequências imediatas.
Só não sabia que, enquanto eu adormecia tentando manter distância, Damian Cavallari permanecia desperto.
E que quando ele ficava acordado em silêncio… nunca era para recuar.

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