“Todo controle começa a ruir no instante em que deixa de ser escolha.”
Elena Rossi
Alguns encontros não acontecem por acaso. Eles acontecem para testar tudo o que já vinha sendo contido.
Sophia não esperou explicação, nem convite, nem contexto.
Assim que reconheceu Damian, soltou minha mão e saiu correndo na direção dele, com os tênis piscando luzes coloridas pelo chão impecável da sala, como se aquele espaço inteiro tivesse sido feito só para recebê-la. Abriu os braços com convicção absoluta e se jogou contra ele sem cerimônia, com confiança pura, sem medo de cair.
— TIO DAMIAN!
Ele foi pego de surpresa por um segundo, tempo suficiente para o corpo reagir antes da mente. Os ombros relaxaram, o canto da boca se curvou num sorriso verdadeiro, raro, e ele se abaixou imediatamente para recebê-la, envolvendo a menina num abraço firme, inteiro, daqueles que não são ensaiados.
— Olha só quem veio me visitar… — disse, com a voz mais leve do que eu já tinha ouvido, enquanto ela se acomodava contra o peito dele, como se aquele lugar sempre tivesse sido dela.
Sophia não perdeu tempo e começou a falar.
— A gente foi no museu! — começou, gesticulando com as mãos pequenas, empolgada tentando organizar a própria respiração. — Tinha dinossauros GIGANTES, ossos enormes, reis muito estranhos… e depois a gente tomou sorvete!
Damian arqueou a sobrancelha, de maneira teatral.
— Sorvete?
— Sim. — ela confirmou, séria, assentindo com força. — Informação MUITO importante.
— Concordo. — ele respondeu, entrando no jogo. — Qual sabor?
— Chocolate. — ela fez uma pausa pensativa, franzindo o nariz. — Mas quase escolhi morango. Foi uma decisão difícil.
Eu observava a cena com o peito apertado tentando conter a alegria que me invadia ao ver os dois interagindo. Damian estava encostado na mesa com os braços cruzados e Sophia estava na sua frente gesticulando e tagarelando empolgada.
Foi então que Sophia ficou de ponta de pés e Damian se abaixou para ouvir o que ela tinha a dizer. Ela cobriu a boca com a mão e tentou sussurrar, mas nós ouvimos exatamente o que ela disse:
— O moço da sorveteria disse que o sorriso da Lena era lindo igual os olhos dela.
Meu corpo inteiro reagiu de uma vez.
— Sophia! — repreendi, sentindo o rosto esquentar enquanto o riso nervoso escapava sem pedir permissão.
Damian levantou o olhar para mim, claramente se divertindo. Os olhos azuis tinham um brilho atento e provocador.
— É mesmo? — perguntou, como se aquela informação exigisse confirmação oficial.
— É sim, tio Damian. — ela confirmou, orgulhosa do próprio papel na história. — Mas eu disse pra ele que ela tinha namorado. E que o namorado dela era brabo.
O silêncio durou exatamente um segundo.
Segundos depois, Alessandro gargalhou alto, enquanto envolvia Beatrice por trás num abraço cheio de intimidade. Beatrice balançou a cabeça, rindo também, como quem já esperava aquele tipo de caos.
Eu queria desaparecer.
Damian riu também, um riso baixo, grave que vibrou no peito antes de se abaixar um pouco mais, ficando na altura de Sophia.
— Obrigado por cuidar dela pra mim. — disse, sério o suficiente para não soar como brincadeira.
Ele se abaixou e beijou meus lábios com ternura, um beijo calmo, contido, mas intenso o bastante para fazer meu corpo inteiro responder. Quando se afastou, manteve os olhos fechados por um instante, respirando fundo, como se estivesse reunindo forças.
— Acho melhor pararmos… — murmurou. — Porque você me faz querer perder a cabeça.
Antes que eu pudesse reagir, ele depositou um beijo lento no meu pescoço. O calor do toque me fez suspirar fundo, mordendo o lábio para conter o que subia pelo corpo.
O beijo no meu pescoço me desarmou por inteiro.
O desejo ardia baixo, insistente, espalhando-se pelo corpo como uma chama que já não aceitava contenção. Respirei fundo, sentindo o peito subir rápido e o coração bater fora do ritmo. Por um segundo, deixei os olhos fechados, tentando recuperar algum tipo de controle, mas não encontrei nenhum.
Quando abri os olhos, encontrei os azuis de Damian já fixos em mim. Havia ali a mesma contenção perigosa de sempre… e algo a mais. Respirei fundo, sentindo a coragem surgir não da razão, mas do desejo.
— Então por que não perde? — perguntei, com a voz mais baixa do que pretendia, porém firme o bastante para não soar como pedido.
Damian não respondeu de imediato. O maxilar dele se contraiu levemente, um músculo pulsou sob a pele, enquanto os olhos escureciam um tom quase imperceptível. Ele se aproximou mais um passo, não o suficiente para tocar, mas perto demais para fingir distância.
— Elena… — disse meu nome como um aviso.
Senti as costas tocarem a borda da mesa atrás de mim, o espaço diminuindo sem que ele precisasse me encostar de novo.
Os olhos dele desceram por um instante, lentos, conscientes, antes de voltarem aos meus.
E naquele segundo suspenso, eu soube.
Aquela sala não era mais um escritório. Era um limite prestes a ser quebrado.
E se alguém entrasse agora… encontraria muito mais do que um presidente atrasado para uma reunião.

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