“Família é quando alguém escolhe ficar mesmo tendo o mundo inteiro esperando lá fora.”
Elena Rossi
Naquela mesa de café da manhã, algo silencioso deixou de ser improviso.
O cheiro de café recém-passado se espalhava pelo ar, quente, acolhedor, misturado com o aroma de pão tostado e manteiga derretendo devagar. A luz da manhã atravessava as janelas da cozinha em faixas suaves, iluminando a mesa como se aquele instante merecesse ser guardado num pote de vidro.
Sophia e eu nos sentamos lado a lado.
Ela balançava as pernas embaixo da cadeira, concentrada na tarefa gigantesca de morder o pão com a maior responsabilidade do universo. A testa franzida, as sobrancelhas unidas, o cuidado de quem acreditava que café da manhã era assunto sério, quase diplomático.
Observei em silêncio, apoiando o queixo na mão.
Esses pequenos momentos tinham se tornado imensos para mim. Tão grandes que às vezes me faltava espaço dentro do peito para guardá-los.
O barulho da porta se abrindo ecoou pela casa e antes mesmo que eu virasse o rosto, vi a fisionomia de Sophia mudar. Foi instantâneo, como se alguém tivesse acendido todas as luzes dentro dela.
Ela pulou da cadeira como um foguete.
— TIA BIA!
Beatrice mal teve tempo de preparar os braços.
Sophia já estava grudada na cintura dela, apertando com força, rindo, se esticando para ganhar altura e distribuir amor em dobro. Bia soltou aquela gargalhada que sempre parecia abraço, abaixando-se no mesmo segundo para prender minha irmã contra si.
— Bom dia, meu amor da minha vida! — declarou, exagerada, enchendo o rosto de Sophia de beijos estalados. — Me conta, você cresceu desde ontem ou eu que fiquei menor?
— Cresci! — Sophia respondeu, absolutamente convencida da própria evolução biológica.
— Eu sabia! — Bia fingiu desespero.
Alessandro entrou logo atrás, apoiando o ombro no batente, assistindo a cena com o sorriso fácil de quem já entendeu que perdeu qualquer chance de ser o centro das atenções.
— Eu perdi alguma coisa ou isso virou território exclusivo de abraços?
Sophia virou o rosto rapidamente, avaliando a situação como uma juíza generosa.
— Você pode abraçar também — concedeu.
— Ufa. — Ele levou a mão ao peito. — Autorização concedida é coisa rara.
Veio até ela e bagunçou o seu cabelo.
— Autorização aceita.
Sorri, observando. Meu peito encheu de um calor silencioso. Aquela cena parecia o conceito perfeito de família.
Beatrice ergueu os olhos para mim por cima do ombro de Sophia e piscou devagar, como quem diz eu estou vendo o que está acontecendo aqui. Depois se inclinou perto de mim quando a menina finalmente voltou para a cadeira.
— Você está com a cara de quem dormiu muito bem — sussurrou, divertida.
Meu rosto aqueceu na hora.
— Bia…
Ela sorriu, satisfeita, e roubou um pedaço de pão da cesta.
— Relaxa. Eu apoio decisões felizes.
Antes que eu pudesse responder, ouvi passos na escada e meu coração reconheceu antes dos olhos.
Damian descia ajeitando o paletó, com o rosto já sério, preparado para o mundo. Mas quando os olhos dele encontraram os meus a linha dos seus ombros cedeu, a dureza da sua boca suavizou e o olhar perdeu a armadura.
Eu sorri ao perceber as mudanças.
Alessandro viu também e o sorriso lateral que nasceu nele dizia que ele sabia exatamente o motivo da mudança repentina.
Damian respondeu com um olhar curto, que dizia claramente: Depois conversamos
Ele atravessou a sala direto até mim, abaixou-se e me beijou devagar, lento o suficiente para que o mundo tivesse tempo de perceber, natural o bastante para que ninguém pudesse fingir surpresa. A mão dele encontrou meu joelho de leve, firme e possessiva o suficiente para fazer meu coração tropeçar.
— Me deixou sozinho e desamparado… — ele murmurou contra minha boca, num tom que misturava acusação e promessa.
Eu ri baixo, totalmente entregue àquele olhar que me desmontava por dentro.
Levei a mão ao rosto dele, sentindo a barba recém-feita arranhar levemente a ponta dos meus dedos.
— Prometo que compensarei depois.

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