“O amor se torna verdadeiro quando passa a proteger mais gente do que apenas dois corações.”
Foi minha irmã quem percebeu primeiro que eu estava apaixonada.
— E do tio Damian — completou baixinho, finalmente.
Meu peito apertou ainda mais forte, como se o coração tivesse sido pego de surpresa dentro do próprio abrigo. O ar demorou um segundo para voltar.
Eu segurei o rosto dela entre as mãos, observando aqueles olhos grandes, atentos, que ainda carregavam sombras que nenhuma criança deveria conhecer. Havia marcas ali que o tempo ainda não tinha conseguido apagar completamente. Mesmo assim, ali estava ela, viva, doce, insistindo em acreditar que o mundo podia, sim, aprender a ser gentil outra vez.
— Ele gosta muito de você — murmurei, com a voz baixa, quase reverente.
Sophia encostou a testa na minha, num gesto simples, íntimo, seguro.
— Eu sei.
O jeito tranquilo, absoluto, como ela disse aquilo quase me desmontou por dentro. Não havia dúvida, não havia medo. Apenas certeza.
Ela sabia.
Crianças sempre sabem.
Elas reconhecem a verdade mesmo quando os adultos ainda estão tentando fugir dela.
— Lena… — sussurrou, e os dedos pequenos apertaram levemente o tecido da minha roupa. — A gente vai ficar aqui pra sempre?
A pergunta veio tão pura que doeu em um lugar antigo.
Porque “pra sempre” sempre foi a palavra que eu mais temi oferecer ao mundo. Promessas grandes carregavam o risco de altas quedas.
Eu abracei minha irmã com força, fechando os olhos por um instante, sentindo o cheirinho de sabonete infantil nos cabelos dela, o calor delicado do corpo pequeno se encaixando no meu como se ali fosse o único território realmente seguro do universo. Como se eu tivesse sido feita para caber exatamente ali.
— Vamos ficar onde a gente for feliz — respondi, escolhendo cada palavra com cuidado. — E agora… a gente tá feliz.
Ela ficou quieta. Séria. Como se estivesse guardando a frase dentro de uma caixinha invisível para analisar depois.
— Então eu quero ficar aqui pra sempre — decidiu, com uma firmeza que não combinava com o tamanho dela.
Meu sorriso nasceu contra o topo da cabeça dela, quente, emocionado.
— Eu também.
Ficamos assim por alguns segundos. Talvez minutos. O tempo tinha um jeito diferente de existir quando Sophia estava nos meus braços. Ele desacelerava, respeitava, quase pedia licença.
Até que ela levantou o rosto de repente.
— Ele te faz sorrir.
Meu coração tropeçou dentro do peito, perdido, exposto.
— Quem? — perguntei, mesmo sabendo exatamente a resposta.
Sophia me olhou com aquela expressão paciente, inteligente, que dizia claramente: não tente me enganar.
— O tio Damian.
Um riso pequeno escapou da minha boca, meio nervoso, meio rendido.
— Faz?
— Faz. — Ela levantou o dedinho e tocou minha bochecha com uma delicadeza solene. — Você sorri com os olhos quando fala dele.
Aquilo me atravessou porque era verdade.
Eu não lembrava a última vez que tinha sorrido com os olhos. Não lembrava a última vez que meus ombros tinham deixado de carregar o peso do mundo na presença de alguém. Nunca imaginei que poderia dormir nos braços de um homem sem que meu corpo permanecesse em alerta.
E naquela manhã… eu acordei em paz.



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