“Ele poderia ter qualquer destino.
Mas desceu as escadas em direção ao meu.”
Elena Rossi
Naquela manhã, o amor não precisou ser anunciado.
Ele usava terno, descia degraus e vinha em minha direção.
Eu estava ali, parada no meio daquele turbilhão de lembranças, tentando alinhar pensamento e emoção, razão e vertigem, quando o som de passos na escada atravessou o silêncio e desfez, sem qualquer piedade, a ilusão de que ainda existia espaço para raciocínios coerentes.
Meu corpo reconheceu antes que meus olhos tivessem tempo de obedecer. Reconheceu no peso exato da pisada, na segurança que não precisava se anunciar, na autoridade tranquila de quem nunca entra em um ambiente, ele ocupa.
Damian.
O nome atravessou minha corrente sanguínea com a eficiência de um segredo recém-descoberto. O ar da sala mudou de densidade, como se tivesse decidido se alinhar à presença dele, e meu coração, traidor e completamente fora de qualquer diplomacia, perdeu o ritmo só para reaprender a bater de novo do jeito que batia quando eu estava perto demais.
Levantei o rosto e lá estava ele no alto da escada. Já pronto para o trabalho, impecável e lindo como sempre.
O terno escuro moldava os ombros largos com uma precisão que beirava o pecado. A camisa branca parecia ter sido desenhada para lembrar ao mundo que a disciplina também podia ser sedutora. A gravata repousava alinhada, firme, como a assinatura de um homem que sempre soube exatamente onde queria chegar.
Mas não foi isso que me desarmou.
Havia algo diferente na postura, na maneira como ele descia os degraus, na respiração menos dura, na ausência daquela muralha invisível que ele costumava erguer entre si e o resto da humanidade.
Era como se amar tivesse tirado um peso que ele carregava há anos. Como se escolher tivesse sido libertador.
Os olhos dele percorriam a sala, procuravam e quando me encontraram, o tempo fez aquela coisa perigosa de desacelerar só para que eu entendesse a importância do momento.
O canto da boca dele subiu devagar, quase íntimo, quase secreto, um gesto mínimo que, ainda assim, foi capaz de reescrever tudo o que eu entendia por felicidade.
Não era o sorriso do CEO, nem o sorriso público, treinado, diplomático. Era o sorriso de um homem que se sentia amado e tinha gostado da sensação.
Meu estômago virou uma festa de fogos e Sophia percebeu antes de qualquer adulto presente. Claro que percebeu. Crianças são especialistas em reconhecer onde mora a alegria.
— TIO DAMIAAAAAAN!
Ela saiu em disparada, os tênis quase derrapando no piso, os braços já abertos como se tivesse absoluta certeza de que o mundo sempre a receberia.
E ele recebeu.
Os braços se abriram no reflexo, naturais, prontos, e Sophia se jogou contra ele com a confiança de quem nunca duvidou de ser pega.
Damian riu.
Aquele riso aberto, jovem, que sempre me fazia pensar que existia um garoto guardado dentro do homem que comandava impérios.
— Ei, princesa… — disse, ajustando-a nos braços com facilidade.
As duas lembranças se encaixaram.
Presente e passado. Desejo e herança.
E foi o bastante para o meu coração simplesmente desistir de se comportar.
Ajustei o anel no dedo, incapaz de fazer qualquer outra coisa além de respirar e assistir o homem que eu amava considerar, com seriedade devastadora, a hipótese de construir uma vida comigo. Antes que qualquer resposta pudesse nascer, a campainha tocou.
O som cortou o momento, preciso, quase cômico, como se o universo tivesse decidido nos conceder uma pausa antes de continuar escrevendo.
Damian piscou para Sophia, conspiratório e cúmplice.
— Acho que é para você.
Mas enquanto ela se afastava, rindo, animada demais para desconfiar de qualquer coisa, os olhos dele voltaram para mim.
Firmes, determinados. Como se alguma engrenagem silenciosa tivesse acabado de se encaixar dentro dele.
Damian Cavallari não era um homem que sonhava. Era um homem que fazia acontecer.
E, naquele instante, eu tive a nítida sensação de que o próximo passo dele… seria em minha direção.
Porque ele poderia ter escolhido qualquer mulher que desejasse. Mas havia escolhido a mim.

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