“Não é o pedido que muda um homem. É descobrir quem ele quer ver sorrir pela manhã.”
Elena Rossi
Existem homens que comandam impérios. Homens acostumados a contratos que valem mais do que cidades, a decisões que mudam destinos, a ordens que atravessam continentes sem jamais encontrarem resistência.
E existem manhãs…
Manhãs raras, perigosas, definitivas. Manhãs em que esses mesmos homens deixam de procurar resultados, números ou vitórias… e descem escadas procurando apenas uma mulher.
Naquela manhã, ele procurava por mim.
A consciência disso não chegou como um pensamento organizado. Veio como um arrepio lento, percorrendo minha pele sem pedir autorização, bagunçando minha respiração, deixando meu coração excessivamente atento a qualquer alteração do mundo ao redor.
Eu ainda tentava compreender a chegada inesperada da minha irmã, o modo impossível como Sophia já sabia do pedido de namoro, o peso luminoso do anel no meu dedo e as indiretas nada discretas de Beatrice, que pareciam enxergar dentro de mim com uma facilidade constrangedora.
Era como se todos soubessem.
Como se o amor tivesse deixado marcas visíveis, impressões digitais espalhadas pela minha boca, pelo meu pescoço, pela maneira como eu caminhava.
Minha cabeça era um emaranhado de cenas, vozes e sensações que se atropelavam sem pedir licença, como se a realidade tivesse decidido acontecer rápida, bonita e grande demais para caber dentro de um único coração.
Grande demais para ser contida.
Grande demais para ser negada.
Eu tentava, com um esforço quase desesperado, encontrar uma forma minimamente digna de colocar em ordem tudo o que tinha acontecido na noite anterior. O teatro, o ar que faltou nos meus pulmões, o pedido de namoro, a maneira como nós dois simplesmente paramos de fingir que ainda existia um mundo fora do que sentíamos, e depois… a manhã, carregada de uma intimidade nova, uma ousadia e eu me sentindo poderosa e única para ele.
Única.
A palavra vibrava dentro de mim como um segredo recém-descoberto. Cada lembrança vinha acompanhada de calor, de consciência e de um tipo perigoso de felicidade.
Perigoso porque era real.
Perigoso porque tinha futuro.
— Esse seu sorrisinho… — a voz de Beatrice deslizou perto do meu ouvido antes mesmo que eu percebesse a aproximação — …tem cheiro de culpa, Elena Rossi.
Meu corpo reagiu antes da minha razão.
Virei o rosto depressa demais, como se fosse possível esconder pensamentos que ainda estavam estampados na minha pele, como se o rubor pudesse ser empurrado de volta para dentro do peito.
Inútil.
Beatrice me observava com aquela expressão que misturava malícia, diversão e uma intimidação tipicamente fraterna. Os braços cruzados, o canto da boca levantando, e o olhar afiado demais para deixar qualquer detalhe escapar.
Ela sempre soube ler silêncios. E naquela manhã eu era praticamente um livro aberto.
— Eu não sei do que você está falando — menti, numa tentativa tão frágil que chegava a ser ofensiva.
O sorriso dela aumentou, paciente, vitorioso.
— Claro que sabe. Mulheres com esse brilho nos olhos não passaram a noite dormindo e esse sorriso diz que alguma coisa ousada você aprontou.
Meu rosto incendiou. Não foi uma metáfora, foi de fato vergonha. Senti o calor subir pelo pescoço, alcançar as bochechas, denunciando cada memória que eu estava tentando manter em silêncio dentro de mim: eu beijando o seu corpo, ele me ensinando a lhe dar prazer, eu me deliciando com o seu gosto…
Antes que eu pudesse inventar qualquer defesa minimamente convincente, Sophia se aproximou, completamente alheia à guerra adulta que acontecia em subtexto.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Leilão da Inocência: A Virgem Vendida Para o Bilionário