“Às vezes, o amor de um homem não termina nele. Ele começa a ensinar o próximo.”
Existem confissões que um homem faz ao mundo.
E existem aquelas que ele só admite diante de outro homem que conhece o seu passado.
Damian caminhou até o bar discreto no canto da sala, onde duas garrafas de whisky descansavam como troféus silenciosos. Pegou dois copos, serviu uma dose pequena para si e outra para Alessandro. Era um gesto mecânico, quase automático, mas havia algo diferente no modo como seus dedos tocaram o vidro: sem pressa, sem rigidez.
Ele entregou um dos copos ao cunhado.
— Saúde. — disse.
— Saúde. — Alessandro repetiu, brindando com um leve toque. Bebeu um gole e estreitou os olhos, como se aquela bebida lhe abrisse uma memória. — Então…
Damian recostou o corpo na cadeira depois que Alessandro fez a pergunta, mas não foi um movimento de fuga ou desconforto, foi o gesto calculado de quem precisava de um segundo para reorganizar algo raro dentro de si, algo que não aparecia em balanços financeiros nem em relatórios de risco.
Um homem como ele estava acostumado a responder sobre fusões, demissões, guerras comerciais.
Mas amor… amor exigia outro tipo de coragem.
Damian Cavallari soltou o ar devagar pelo nariz, o olhar atravessando o vidro da sala como se ainda pudesse ver as luzes do teatro refletidas na memória e Alessandro percebeu.
Claro que percebeu, ele conhecia aquele silêncio.
— Então? — insistiu, abrindo um sorriso enviesado. — você alugou metade da cidade? Fechou avenidas? Mandou chover pétalas do teto? Porque, conhecendo você, a escala mínima deve ter sido absurda.
O canto da boca de Damian se moveu.
— Aluguei um teatro.
Alessandro soltou uma gargalhada baixa.
— Sabia.
Damian apoiou os cotovelos nos braços da cadeira, entrelaçando os dedos, e pela primeira vez desde o início daquela manhã o presidente não estava organizando o mundo.
Estava revivendo uma mulher.
— Eu queria que ela visse — disse, com a voz mais baixa agora, mais íntima — que eu lembrava.
Alessandro inclinou a cabeça.
— Lembrava do quê?
Damian não hesitou.
— De tudo.
Havia firmeza e algo que raramente se via: entrega.
— Do primeiro dia. Do medo que ela fingiu que não tinha. Do jeito que enfrentou uma sala inteira sem abaixar o queixo. Do momento em que todo mundo via um negócio… e eu vi uma pessoa.
Alessandro assobiou, impressionado.
— Você está apaixonado mesmo.
Damian soltou um meio riso, apenas confirmando o que Alessandro já sabia.
— Eu coloquei nossa história no palco — continuou. — Fiz ela assistir cada queda de muro, cada passo que me trouxe até ali.
Ele passou o polegar pelo próprio indicador, lembrando do anel.
Da safira verde. A pedra que lembrava os olhos dela. Os olhos que o hipnotizaram desde o primeiro momento.
— Quando eu pedi… ela já estava chorando.
Alessandro cruzou os braços.
— E você?
Damian respirou fundo e demorou um segundo para responder. Porque homens como ele não tinham o hábito de admitir onde doía.
— Eu estava com medo.
A revelação fez Alessandro arregalar os olhos.
Damian sustentou o olhar e ali estava a resposta.
Nua, simples e irrevogável.
— Eu a amo.
Alessandro soltou o ar, como se tivesse esperado anos para ouvir aquilo.
Bateu a mão no ombro dele.
— Eu sei.
— Eu jamais imaginei que pudesse amar uma mulher como eu amo Elena. — ele disse, e dessa vez não tentou esconder. A frase saiu com um orgulho estranho, como se admitir aquilo fosse, paradoxalmente, um ato de força.
Alessandro ficou em silêncio. E o silêncio dele era respeito.
Ele se aproximou, diminuindo a distância, e tocou o ombro do cunhado com firmeza, um gesto masculino e fraternal.
— Fico feliz em saber disso, meu amigo. — disse, simples, sem ironia.
Damian sustentou o olhar por um segundo. Alessandro se afastou devagar, retomando o tom de brincadeira como quem se recusa a ficar sentimental por muito tempo.
— E se o pedido de namoro foi assim… imagina quando vier o de casamento.
Damian sorriu ladino. Um sorriso que não era um “talvez”. Era um “quando”.
— Você não faz ideia. — respondeu, e aquele brilho nos olhos fez Alessandro erguer as sobrancelhas.
— Eu deveria me preocupar?
— Eu deveria. — Damian retrucou, pegando o copo de volta. — Eu me preocupo com o que sinto, não com o que planejo.
Alessandro deu uma gargalhada, e então, como se a conversa tivesse aberto uma porta que ele também estava evitando atravessar, ele recostou o corpo na mesa e soltou:
— E por falar em casamentos…

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