Damian Cavalari
Acordei antes do amanhecer.
Não porque quis, ou porque o corpo pediu. Mas porque algo me arrancou do sono como um puxão invisível, um choque quente, incômodo, real demais para ser ignorado.
Sentei na cama com a respiração pesada.
A cabine ainda estava mergulhada na penumbra perfeita do iate: silenciosa, organizada, sem ruídos, sem falhas, sem interferências. Exatamente como tudo na minha vida sempre deveria estar.
Diferente de mim.
Havia uma inquietação no centro do meu peito que eu não reconhecia. Não era tensão de negócios, a pressão de decisões, não era cansaço físico. Era outra coisa, ou melhor, outra pessoa.
Passei a mão pelos cabelos, irritado com a própria reação. O corpo parecia ter despertado de um contato que não existiu ali, mas no quarto ao lado. Uma sensação que não fazia sentido. Um impulso errado, um erro.
Como um homem como eu, treinado para dominar, controlar, antecipar estava permitindo que uma garota comum causasse esse tipo de reação?
A resposta veio rápida demais: Elena não era comum.
Não foi pelo corpo. Eu já tive corpos mais perigosos. Nem apenas pela beleza. Não vou negar que Elena tem uma beleza estonteante. Que o contraste entre a pureza de seus olhos e seu corpo avassalador mexeram comigo assim que ela subiu naquele palco. Mas foram aqueles malditos olhos.
Verdes e corajosos demais para quem estava acuada. A maneira como ela subiu naquele palco, o modo como enfrentou os olhares sem abaixar a cabeça, mesmo tremendo por dentro.
Aquilo não era sedução. Era desafio, medo, resistência.
E foi por isso que eu a quis.
Não por desejo, mas por necessidade de provar, para mim mesmo, que ninguém ama sem interesse. Que ninguém se entrega sem querer algo em troca. Que o amor é apenas uma palavra bonita para justificar a ambição.
Então eu a comprei.
Sem rodeios. Sem disfarce. Sem teatro.
Comprei o tempo dela, o corpo, a obediência, a inocência, as escolhas… comprei por seis meses.
Comprei como se compra algo valioso para usar e descartar quando perde a utilidade. Era assim que eu sempre fazia, então por que essa garota estava me tirando do eixo?
Levantei num movimento brusco.
Caminhei até o banheiro, liguei a água fria e joguei no rosto como se tentasse arrancar de mim aquela sensação incômoda que não cedia. A água escorria, e o reflexo me devolvia um homem intacto. Mas algo em mim estava irremediavelmente rachado.
Respirei fundo.
— Controle, Damian. — disse para o espelho.
Mas o espelho não respondeu, quem respondeu foi a memória.
Lembrei do meu passado. De quando tudo em minha vida começou a ruir. Lembrei do meu pai. O poderoso Enzo Cavallari.
O nome atravessou por dentro como um corte limpo, sem sangue visível, mas profundo.
Eu já odiava meu pai muito antes de o mundo aprender a pronunciar nosso sobrenome com nojo. O desprezo não nasceu do escândalo. Ele foi sendo lapidado em silêncio, ano após ano, a cada mentira dita com voz mansa, a cada acordo selado com mãos sujas, a cada decisão que comprava poder ao preço da dignidade alheia.
Quando as primeiras fissuras da verdade começaram a se abrir, eu não me choquei. Eu me preparei.
Nunca mais confiei sem calcular, nem toquei sem dominar. Nunca mais deixei que alguém se aproximasse do lugar exato onde ela me destruiu.
Naquele dia, eu prometi diante do que havia sobrado de mim:
Nunca mais vou amar ninguém. Nunca mais confundir sentimento com verdade. Porque amor não existe. Existe interesse, sempre existiu e vai existir.
A lembrança veio com força demais. E foi aí que tudo se encaixou.
Elena estava começando a olhar como Valentina me olhou um dia. E naquele instante, eu entendi exatamente o que precisava fazer. Eu não cometeria o mesmo erro duas vezes.
Saí da cabine como se fugisse das próprias lembranças.
Cada passo pelo corredor do iate marcava o ritmo da decisão que já se consolidava dentro de mim.
— Ela está mexendo com seu corpo. Com sua mente. Domine isso antes que vire um problema. — repeti como um mantra.
Parecia controle. Mas no fundo… Era medo.
Parei diante da janela que dava para o convés e olhei para o céu que ainda estava cinza. O mar diante de mim, estava aparentemente imóvel.
Fechei a mão devagar e finalmente aceitei a verdade que eu vinha evitando desde que a trouxe até ali:
Elena não era apenas uma compra. Ela era uma ameaça, e eu não deixo ameaças crescerem. Quando eu a encontrasse novamente, não haveria suavidade, dúvida ou hesitação. Eu deixaria claro, de uma vez por todas, que apesar da beleza, da inocência e de tudo aquilo que ela acredita que eu comprei… Ela foi uma jogada, uma escolha, uma estratégia com um único objetivo:
Provar que ninguém, nunca mais, será capaz de me enganar novamente.

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