Damian Cavalari
Não era para significar nada.
Era isso que eu repetia mentalmente enquanto subia as escadas que levavam ao convés principal, enquanto observava o dia ainda nascendo em tons pálidos ao redor do iate.
Elena Rossi não era para significar nada.
Ela era um contrato, uma transação, uma escolha estratégica. Uma lembrança viva da promessa que eu fiz a mim mesmo: Nunca mais acreditar em olhares limpos, vozes suaves, promessas sussurradas.
Enquanto o vento cortava o ar, trazendo o cheiro salgado do mar e o murmúrio distante das ondas, eu soube, antes mesmo de vê-la, que ela estava ali. O corpo reconheceu antes da razão. O estômago contraiu, meus ombros ficaram tensos e meu passo desacelerou, irritantemente consciente.
Ela estava próxima da amurada, de costas, os cabelos ruivos estavam soltos, caindo em ondas molhadas até a metade das costas, como se tivesse saído do banho há pouco. Usava um vestido simples, claro, leve demais para a forma como o meu olhar, traidor, reagiu.
As curvas estavam ali. Discretas, mas inegáveis. Aquela cintura que o tecido não conseguia esconder, a linha do pescoço, o ombro nu, exposto por um descuido na alça. E, mesmo antes de ela se virar, eu sabia que os olhos estariam do mesmo jeito: grandes, verdes, absurdamente atentos e inocentes demais para serem de verdade.
Lara estava ao lado dela, falando algo baixo, segurando uma pasta. Quando me viu, minha assistente endireitou imediatamente a postura e mudou a expressão e esse pequeno gesto me deixou intrigado.
— Senhor Cavalari. — cumprimentou.
Elena se virou ao ouvir o nome e eu odiei o que isso fez comigo.
Havia algo no rosto dela, um vestígio inquietante, como se a noite tivesse deixado marcas não só na pele, mas enterrado resíduos nos pensamentos. Quando seu olhar cruzou o meu, por um segundo curto demais para ser seguro, eu vi o que sempre vejo em todas: confusão, medo, desejo.
Mas naqueles olhos verdes existia algo mais perigoso. Não era fragilidade, era resistência. Uma força silenciosa, tensa, lutando para não ceder, para não ruir. Aqueles olhos pareciam limpos e inocentes demais. E eu sabia que era exatamente aí que morava o risco.
Eu não podia me permitir acreditar neles.
Porque agora eu enxergava com desconfiança. Sabia que a pureza, muitas vezes, é só a máscara mais cruel e Valentina tinha me ensinado isso da pior forma possível.
“Olhos limpos não significam alma limpa, Damian.”
Ela tinha razão.
Elena abriu a boca, como se pretendesse dizer alguma coisa. Talvez um bom dia, ou uma tentativa de interação. Mas, não dei essa chance.
— Vejo que conseguiu dormir. — disse, com a voz fria, sem qualquer saudação.
Ela piscou, surpresa com o tom.
— Eu… — começou. — Sim. Um pouco.
Notei o rubor leve nas bochechas, o jeito como as mãos se apertaram na barra do vestido. Qualquer homem minimamente atento interpretaria aquilo como nervosismo genuíno. Mas eu não era qualquer homem, eu sabia reconhecer a encenação.
— Senhor Cavallari?
Encarei Elena esperando o que ela tinha a dizer.
— Eu preciso ir ao hospital. — disse, com a voz baixa, mas firme. — Minha irmã está lá. Eu… eu preciso vê-la, saber como está.
A frase saiu sem qualquer dramatização. Não havia súplica, nem tentativa óbvia de apelo, apenas a constatação seca de quem dizia querer visitar a irmã enferma.
Continuei encarando Elena em silêncio, prolongando o momento de propósito, como se pudesse arrancar dali alguma fissura, algum traço oculto de manipulação naquele pedido aparentemente simples.
Ela sustentou meu olhar, me encarando com aqueles malditos olhos verdes.
— É uma boa ideia. — respondi, após alguns segundos. — Assim, você já faz os exames também. Evitamos dois deslocamentos desnecessários.
Elena virou o rosto para a assistente, surpresa.
— Exames?
— Exames de rotina. — respondi antes que Lara explicasse. — Eu não costumo trabalhar com incertezas. Quero ter certeza de que o investimento que fiz não vem com problemas de fábrica.
— Eu não sou um produto. — murmurou com a voz trêmula.

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