Elena Rossi
A mulher ergueu os olhos do computador devagar e tarde demais para ser apenas rotina.
O silêncio ao redor parecia ter ganhado peso. O corredor da UTI, que até então era só eco de passos, sons metálicos e respirações contidas, ficou suspenso naquele intervalo mínimo entre uma frase e o estrago que ela causaria.
— Senhorita Rossi… — a voz veio hesitante, medida, como se cada palavra tivesse sido pesada antes de sair — uma equipe de Milão chegou há pouco. Foram chamados para avaliar o quadro da sua irmã. O caso foi encaminhado como prioridade máxima.
O ar literalmente sumiu dos meus pulmões. A sensação era de ter sido empurrada do alto de um prédio
— Prioridade máxima…? — repeti, incrédula, sentindo a garganta fechar por dentro. — Quem… quem chamou essa equipe?
Ela hesitou. E naquele segundo eu soube que a resposta mudaria tudo.
— A autorização veio direto da administração. O prontuário foi liberado e o protocolo de transferência já está sendo preparado.
Transferência.
Administração.
Prioridade máxima.
Palavras que não pertenciam ao meu mundo. Ao mundo de uma garota que contava moedas no fundo da bolsa para comprar analgésicos. Que negociava com farmacêuticos como se a dignidade fosse troco. Que aprendeu cedo demais que “tratamento” quase sempre vinha acompanhado da palavra “limite”.
Minhas pernas ficaram trêmulas e antes que eu pudesse reagir, ouvi passos apressados se aproximando pelo corredor.
Minha madrinha.
— Elena… — Lúcia me chamou ainda de longe, com a voz quebrada demais para ser apenas curiosidade.
Quando a vi, corri na direção dela como se o chão estivesse cedendo atrás de mim. Me lancei em seus braços com o corpo tremendo de alívio, medo, choque… tudo misturado. Tudo errado.
— O que está acontecendo, madrinha? — sussurrei contra o ombro dela. — Me diz que isso é real… me diz que não estou sonhando.
Ela me apertou forte demais, como se estivesse segurando a própria vida junto comigo.
— Estão organizando a transferência da Sofia para um hospital especializado. Um centro de referência. — respondeu, ainda sem conseguir conter as lágrimas.
Foi então que uma mulher se aproximou. Elegante, contida e profissional até na respiração. Meus olhos desceram para o crachá preso ao jaleco:
Dra. Patrícia Arquete — Oncologia Pediátrica.
— A senhora é a irmã da paciente Sofia Rossi? — perguntou com gentileza clínica.
Assenti em silêncio.
— Recebemos uma solicitação formal de transferência urgente para o Hospital San Michele di Firenze em Milão. Ele é o melhor centro do país no que diz respeito a doença da sua irmã. A paciente será levada ainda hoje.
— Mas… eu não tenho condições… — minha voz falhou no meio da frase. — Eu… eu não tenho como pagar por isso…
Ela sorriu com a tranquilidade de quem carrega uma resposta pronta.
— Não precisa se preocupar com custos. — respondeu. — Tudo foi coberto por um patrocinador anônimo.
O mundo girou, porque no fundo eu podia imaginar quem estava por trás de tudo isso.
Damian Cavalari. O homem que havia comprado seis meses da minha vida como quem escolhe o vinho mais caro de uma carta exclusiva.
Mas por que ele estava fazendo isso?
Minha mente borbulhava perguntas que eu não tinha coragem de formular em voz alta.
Caminhei até o vidro da UTI com as pernas trêmulas, ainda segurando os braços da minha madrinha como se eu pudesse cair a qualquer segundo. Lá dentro, Sofia dormia.
Mas o olhar dela me manteve presa. Havia algo ali, uma sombra atrás das palavras.
— Entretanto… — continuou, inclinando-se levemente na minha direção — o senhor Cavallari não tolera quebras de contrato.
Senti a garganta arder.
— Eu sei.
— Mas lembre-se, Elena… — a voz dela ficou ainda mais baixa — que se quebrar uma única cláusula, se tentar fugir, se falar com alguém, se desobedecer…
Ela deixou a frase morrer no ar como uma ameaça aberta.
Completei com a voz morta:
— Minha irmã perde o tratamento.
Lara se afastou sem responder.
O som de seus saltos ecoou pelo corredor como uma sentença. E eu fiquei ali diante do vidro, olhando minha irmã respirar.
Sofia estava viva. E aquilo deveria ser tudo o que importava. Mas o meu coração já não obedecia apenas à lógica.
O preço?
Eu já tinha pago.
Com o corpo, a dignidade, a liberdade e o silêncio.
E agora algo ainda mais perigoso começava a escorrer por dentro de mim. Uma sensação que eu não tinha previsto no contrato. Meu coração começava a bater por ele e isso me apavorava mais do que qualquer cláusula.
Porque eu sabia… Se eu perdesse o controle agora, não seria só a minha liberdade que estaria em risco. Seria a minha alma. E talvez, exatamente por isso, fosse tarde demais para impedir.

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