Elena Rossi
O anoitecer chegou sem piedade.
Não houve transição suave. A luz simplesmente se apagou do céu como se alguém tivesse fechado uma porta com força demais. O cinza avançou primeiro, depois o violeta escurecido, pesado, sem estrelas, sem lua visível, apenas o som distante das sirenes se dissolvendo entre os prédios e o farfalhar persistente da chuva fina que ainda insistia em cair. A noite nascia fria, áspera, como se até o mundo tivesse decidido não ser gentil comigo.
Dentro do hospital, tudo parecia se mover em outro ritmo.
Não o ritmo da vida comum, mas o das urgências que não esperam, das decisões que não pedem licença, das dores que não têm horário. A movimentação era incomum para aquela hora. Pessoas caminhavam com pressa contida, passos calculados, como se todos soubessem exatamente o que fazer, menos eu.
Pranchetas passavam de mão em mão. Portas se abriam e se fechavam com rapidez. Sussurros urgentes se cruzavam no corredor como fios invisíveis de tensão. Eu observava tudo como quem sonha acordada, como se estivesse dentro de um filme do qual não lembrava ter aceitado o papel principal, incapaz de acreditar plenamente no que estava acontecendo.
No leito, Sofia dormia serena.
Serena demais para alguém que carregava uma guerra dentro do próprio corpo.
O rosto pequeno e pálido parecia o de um anjo esculpido em porcelana frágil demais para este mundo. Os cílios longos repousavam sobre a pele quase translúcida. O peito subia e descia num ritmo suave, precioso como algo que pode se perder a qualquer segundo. Eu me aproximei devagar, como se qualquer passo pudesse quebrar aquele instante delicado demais para existir.
Minha irmã parecia tão pequena naquela cama enorme.
Pequena demais para a dor, para o medo, para pagar o preço que eu havia imposto ao mundo por ela.
Uma equipe de enfermeiros começou a preparar os tubos, desconectando fios com a precisão de quem já fez aquilo centenas de vezes. Cada movimento era técnico, matemático, perfeito mas, para mim, cada clique soava como um adeus. Como um selo sendo colado sobre algo que eu ainda não estava pronta para perder.
As luzes piscavam.
Os monitores eram desligados.
Vozes davam ordens em tons controlados.
Tudo parecia ensaiado, preciso, cruelmente eficiente.
Não havia espaço para o caos ali. O caos ficava todo dentro de mim.
Uma médica de jaqueta azul-marinho, provavelmente da equipe de Milão, virou-se para mim. Tinha olhos experientes, aqueles que já viram esperanças morrerem e regressarem no mesmo dia.
— Está pronta, senhorita Rossi?
Eu não estava. Nunca estaria, mas assenti.
Apenas isso. Um movimento mínimo de cabeça, quase imperceptível, como quem aceita algo que não tem escolha de recusar. Como quem se rende sem fazer barulho.
Ela me ofereceu um avental esterilizado. Vesti com as mãos trêmulas, sentindo o tecido gelado deslizar contra a minha pele quente, e esse contraste fez meu corpo arrepiar.



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