Elena Rossi
O carro avançava pela estrada estreita como um animal de metal obediente, cortando a manhã ainda coberta por uma névoa pálida. As árvores altas dos dois lados formavam um túnel verde-escuro, e a luz do sol filtrava-se em lâminas douradas sobre o capô. O mundo parecia calmo demais para o que acontecia dentro de mim.
Eu estava sentada ao lado de Damian, no território direto dele.
O banco de couro era macio, silencioso sob meus movimentos mínimos. O cinto atravessava meu peito como uma linha de contenção, lembrando-me que eu estava presa não apenas ao banco, mas à trajetória inteira que ele havia traçado para nós dois.
Ele dirigia com uma calma quase cruel.
Uma mão firme no volante. A outra repousando solta sobre a perna. A postura impecável e a atenção absoluta na estrada.
O cheiro do perfume masculino impregnava o ar fechado do carro. Um aroma amadeirado, limpo, intenso, que parecia se misturar ao meu oxigênio. Minha respiração, traidora, havia se adaptado àquele ritmo estranho entre ameaça e fascínio.
Meu coração batia alto demais dentro do peito. Cada curva da estrada parecia um avanço inevitável dentro de algo maior do que qualquer decisão consciente que eu ainda achava possuir.
A lembrança de Beatrice atravessou minha mente novamente.
O sorriso dela tão genuíno, a forma como ela havia me olhado, a naturalidade com que enfrentou Damian.
“Depois conversamos, Elena…”
A frase ecoava agora como um aviso sussurrado.
Inclinei levemente o rosto para a janela, fingindo interesse nas encostas verdejantes que surgiam à nossa direita. Mas o reflexo no vidro me devolveu algo pior: o contorno do rosto dele ao fundo, sobreposto ao meu. Nossos mundos se tocando numa imagem distorcida.
Por um momento prendi o ar. Meu Deus, porque ele mexia tanto comigo?
A estrada começou a subir, o motor mudou de tom e ao longe pude ver a área aberta no alto da colina: o heliponto.
Um círculo de concreto isolado entre árvores, vigilantes nos extremos, uma estrutura discreta de apoio técnico. E no centro, como uma criatura adormecida aguardando comando, o helicóptero.
Meu estômago revirou. Eu nunca tinha sequer andado de avião na vida, quem diria de helicóptero.
O carro desacelerou e Damian estacionou com precisão. O motor foi desligado e o silêncio final caiu como um veredito. Por alguns segundos, nenhum de nós se mexeu, até que ele soltou o volante, abriu a porta e saiu.
O ar frio da manhã invadiu o interior do carro, trazendo consigo o cheiro de grama molhada e combustível. O contraste com o interior fechado fez meu corpo estremecer. Por um momento fiquei imóvel, não sabia se eu descia atrás dele, ou deveria aguardar pelo seu comando. Foi quando ouvi o barulho da minha porta sendo aberta e desviei meus olhos para ele.
— Desca.
Não disse nada. Apenas inclinei meu corpo saindo do carro, quando meus pés tocaram o chão, tive a estranha sensação de atravessar uma fronteira invisível, como se o mundo ali fosse outro.
O vento bagunçou meus cabelos ruivos. E eu apenas ouvia o barulho distante das hélices sendo preparadas. Caminhamos lado a lado até a área demarcada.
Próximos demais para sermos alheios. Distantes demais para sermos algo além disso.
Um técnico nos aguardava. Ele se aproximou e informou alguns protocolos de segurança. O piloto fez uma checagem visual e logo em seguida, Damian entrou sentando com naturalidade no banco lateral. Eu hesitei por um segundo e ele percebeu.
— Entre, Elena. — disse apenas.
Entrei e logo em seguida a porta foi fechada.


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