Elena Rossi
O helicóptero tocou o solo com um impacto seco, e as hélices continuaram girando acima de nós como lâminas invisíveis rasgando o ar. O vento levantou poeira e folhas. Meu estômago se contraiu como se o chão ainda estivesse longe demais para ser real.
Damian foi o primeiro a se levantar.
Desafivelou o cinto, abriu a porta antes mesmo do piloto anunciar a liberação total. O ar frio da manhã entrou cortante, trazendo o cheiro de grama molhada e combustível. Eu o segui, ainda sentindo as pernas instáveis, como se tivesse atravessado não apenas o céu, mas uma fronteira que não me permitiria recuar.
A poucos metros do heliponto, um carro preto aguardava com o motor ligado. O motorista estava ao lado, com o corpo rígido e olhar treinado.
Damian caminhou até ele sem hesitar.
— Pode ir.
— Senhor?
— Eu assumo daqui.
Não houve discussão, apenas obediência.
Pouco depois, eu já estava novamente no banco do passageiro. A porta se fechou com aquele som seco e definitivo, o mesmo clique que parecia sempre selar algo dentro de mim. Damian deu a volta no carro e sentou ao volante.
Ver ele ali, tão próximo fez meu peito apertar.
O carro arrancou. O heliponto ficou para trás em segundos. À frente, uma estrada curta, limpa, margeada por árvores baixas e placas discretas indicando acesso hospitalar. O hospital estava perto.
Perto demais.
O silêncio se instalou entre nós como uma entidade viva. Damian não parecia humano em certos momentos. Havia nele uma calma artificial, um controle tão absoluto que me colocava entre a fascinação e o pavor. Ele era o tipo de homem que transforma compaixão em cálculo e ainda assim, sob aquela máscara de granito, às vezes eu percebia um lampejo sutil de cansaço que eu não sabia dizer se era dor ou tédio.
Quando o carro cruzou os portões do Hospital San Michele di Firenze, senti minhas mãos suarem. O lugar era enorme, cercado por jardins perfeitos e muros de vidro. O ar cheirava a lavanda e a esterilidade. Tudo ali gritava excelência, distância e dinheiro. Como se a esperança tivesse sido desenhada por arquitetos e vendida a preços que só alguns podiam pagar.
Damian estacionou discretamente numa entrada lateral, longe do movimento principal. Um segurança abriu a porta e ele saiu primeiro.
Dessa vez, percebi a mudança na sua postura, a cabeça levemente baixa, o passo contido, o olhar firme voltado para frente. Ali, ele não era o magnata que comandava impérios, ea apenas um vulto silencioso atravessando corredores que fingiam não reconhecê-lo. Apenas diretores e médicos sabiam da sua presença e todos pareciam instruídos a fingir que ele não existia.
Eu o segui.
Mesmo tentando apagar a própria existência, Damian ainda dominava o espaço. Médicos, enfermeiras e administradores desviavam o olhar. Respeitosos, temerosos, conscientes de que ele não era um homem que aceitava negativas.
Entramos por um corredor reservado.
As luzes eram suaves, o chão brilhava e o som dos passos ecoava limpo demais. Meu coração, no entanto, batia alto como um alarme prestes a denunciar tudo o que eu sentia.
Damian parou diante de uma porta de vidro fosco. No letreiro lia-se:
UTI Oncológica Pediátrica – Quarto 204
— Ela está aqui. — disse, sem me olhar.
Meus dedos se fecharam no tecido do casaco.
— Posso vê-la?
— Sim. — Ele finalmente me encarou. O olhar era frio, mas havia algo ali que não se ajustava ao controle, parecia… hesitação? Claro que não, ele nunca hesitaria.
— Mas ela não pode te ver.
O nó na minha garganta se fechou de vez.
— Por quê?



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