“Algumas consequências chegam antes do café.”
Elena Rossi
Existe um tipo de despertar que não começa nos olhos, mas na pele.
O meu começou assim, como se o corpo soubesse algo que a memória ainda não tinha coragem de confessar.
Pisquei algumas vezes até que a visão estabilizasse. Minha cabeça latejava um pouco, mas não foi isso que me chamou atenção. Foi o fato de estar completamente nua. Demorou um segundo até meu cérebro processar o que justificaria metade do meu pânico.
Eu não dormia nua. Nunca dormi.
Puxei o lençol depressa, cobrindo o corpo com um movimento que teria sido digno se não tivesse sido feito como quem tenta salvar um segredo tarde demais. O tecido se arrastou sobre meu corpo nu, e senti a tensão subir instantaneamente para o rosto. Meu sangue parecia ter aprendido a corar antes mesmo de eu raciocinar.
Fechei os olhos por um instante, tentando agarrar qualquer memória que explicasse o motivo de eu estar completamente nua na cama que passou a ser minha desde que eu havia me mudado para casa dele.
O cérebro, no entanto, respondeu com o tipo de silêncio que não é esquecimento, é adiamento.
Não vieram imagens nítidas, não vieram fatos cronológicos, não veio a narrativa completa da noite. Vieram apenas sensações soltas demais para serem decifráveis e intensas demais para serem ignoradas.
O corpo se antecipou à mente, estremecendo de um jeito que me deixou ainda mais alerta. A pele parecia lembrar do que eu não conseguia formular em palavras e, quanto mais eu tentava insistir, mais a memória recuava, como se guardasse um segredo que não estava pronta para confessar.
Depois disso?
Nada.
Apenas o vazio confortável e irritantemente suspeito, de quem só dorme quando o corpo já fez tudo que precisava fazer.
Abri os olhos devagar.
Um som me fez virar na direção do banheiro. A porta tinha sido aberta e, por um segundo, pensei que fossem apenas gotas caindo da torneira. Mas então ele surgiu.
Saindo do banheiro apenas com uma toalha presa na cintura, como se o mundo inteiro existisse apenas para confirmar que eu não estava pronta para olhar para aquilo, mas olhei mesmo assim.
O tecido branco descansava baixo demais no quadril, revelando o V esculpido que descia até a borda da toalha como um convite silencioso. O peito firme, definido estava exposto, com uma linha sutil de pelos que desaparecia sob o algodão. E havia tatuagem na costela, aquela que eu tinha visto de relance na manhã em que levei os biscoitos, mas que agora ela parecia ganhar sentido sob a luz da manhã. Algo geométrico, como linhas e sombras, masculino demais, perigoso demais para o contexto do meu estado atual de vulnerabilidade.
Gotas de água desciam devagar pela clavícula, percorriam o peitoral e se perdiam na toalha no final da jornada, como se o tecido tivesse sido criado apenas para absorver o rastro de algo que eu não deveria estar encarando tão abertamente.
Mas eu encarei e Damian viu.
Um sorriso lento surgiu no canto dos lábios dele, um daqueles que homens muito seguros de si usam quando percebem que alguém acabou de passar do limite do próprio autocontrole.
— Está tudo bem, Elena?— perguntou, como se estivesse apenas constatando o clima, não expondo o crime.
Senti meu rosto pegar fogo. O lençol quase escorregou das minhas mãos, e eu o puxei mais para cima, cobrindo os ombros e praticamente enterrando o que restava da minha dignidade sob o tecido.
Damian deu mais dois passos até o closet, e antes que eu pudesse formular qualquer pensamento coerente, ele soltou, com uma naturalidade ofensiva:

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