“O poder não está no que se ordena, mas no que se sustenta.”
Damian Cavallari
Cheguei ao hospital San Michele di Firenze quarenta minutos depois do telefonema. Entrei pelo saguão principal sem diminuir o passo. As portas automáticas abriram. Alguns olharam, reconheceram e recuaram. Nome e posição ainda falam alto. Em ambientes como aquele, até a curiosidade aprende a respeitar protocolos.
No balcão, a recepcionista levantou os olhos, ajeitou o blazer e quase endireitou a postura sozinha.
— Bom dia, senhor Cavallari.
— Dra. Arquete? — perguntei.
— Já foi informada da sua chegada. Está a caminho.
Assenti, mais por hábito do que por cortesia, e me virei na direção do corredor principal. O cheiro de antisséptico e flores dominava. Uma combinação pensada para vender a ideia de recuperação em vez de dor. Uma encenação. E, como quase tudo ali, funcional.
O som dos saltos dela veio antes da presença.
— Senhor Cavallari!
Virei o rosto e encontrei a doutora Patricia Arquette se aproximando com a mesma energia controlada de sempre. Ela tinha o tipo de entusiasmo que, em qualquer outro contexto, poderia ser irritante, mas que em um hospital pediátrico se tornava quase um alívio. O jaleco impecável, os cabelos presos em um coque prático, a prancheta eletrônica na mão. Profissionalismo com uma camada de humanidade que não parecia ensaiada.
— Bom dia, doutora — cumprimentei.
Ela fez um gesto indicando o corredor.
— Vamos caminhando. Tenho boas notícias.
Começamos a andar lado a lado. Ela falava enquanto avançávamos, com os olhos alternando entre a tela do tablet e o caminho à frente.
— Os últimos exames da Sofia mostraram uma melhora significativa nos parâmetros que estávamos monitorando — começou, e o tom dela subiu meio grau de animação. — Os marcadores inflamatórios caíram, a resposta ao tratamento foi melhor do que o esperado e o quadro respiratório estabilizou. É um salto importante, principalmente considerando de onde partimos.
Eu ouvia cada palavra, mas meu rosto não acusava nada. O músculo do maxilar se mantinha firme, a postura constante. Aprendi há muito tempo que emoção demais, em ambientes como aquele, não ajuda. Não melhora resultados, não altera diagnósticos, não muda protocolos. Serve apenas para enfraquecer a percepção de quem precisa decidir.


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