“Ninguém nasce frio. Alguém ensinou.”
Começamos a caminhar de novo, e eu fui junto. Passamos por uma sala com fotografias em preto e branco e uma em especial chamou minha atenção. Era uma mulher de vestido simples em frente a uma escultura. Ela era linda e seus traços delicados lembravam os de Beatrice, mas o sorriso lembrava o dele.
Beatrice parou, tocando de leve a borda da moldura.
— Ele fez a minha mãe sofrer mais do que qualquer quadro poderia justificar. — disse, finalmente. — Relacionamentos extraconjugais, noites que terminavam em discussão, promessas que nunca passavam de palavras bem encaixadas. O tipo de coisa que destrói uma mulher devagar, especialmente uma que ainda insistia em acreditar.
Senti um nó no estômago, sem saber exatamente por quê. Talvez porque, de repente, algumas peças de Damian começassem a se encaixar.
— Damian… — ela inspirou devagar — sempre foi o que mais brigou com ele. Desde cedo. Não suportava ver o que ele fazia com a nossa mãe. Eles tiveram discussões que praticamente racharam a casa em duas. Gritos, portas batendo, silêncios que duravam dias.
— Por muito tempo — Beatrice continuou — Damian não quis nada que viesse dele. Nem dinheiro, nem favores, nem oportunidades. Recusou cargos, viagens, tudo o que pudesse cheirar a “presente do papai”. Isso, claro, quase enlouqueceu nosso pai. Homens como ele não estão acostumados a ver os filhos cuspirem na herança.
Ela riu, mas havia dor no fundo do som.
— E o museu? — perguntei, olhando ao redor.
Beatrice levou alguns segundos para responder.
— Era um sonho de minha mãe. — disse, por fim. — Quando ela morreu — Passou os dedos pela placa com o nome de Francesca. — Damian o comprou, me deu de presente e disse que eu seguisse os passos dela. Acho que onde ela estiver… — Beatrice sorriu e tocou novamente a placa. — deve estar feliz.
De repente, o homem de regras rígidas e controle absoluto que dividiu uma cama comigo na noite anterior parecia… menos abstrato. Havia história ali. Havia ferida, promessa, lealdade.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, observando um quadro que retratava uma mulher de costas, diante de uma janela aberta. A imagem tinha algo de melancólico, mas também de libertador.
— E você? — perguntei. — Como se encaixa nisso tudo?
Beatrice deu de ombros, mas havia um peso definido ali.


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