Caroline Hart
A primeira coisa que senti ao despertar foi o cheiro dele.
Era, ao mesmo tempo, amadeirado, quente, envolvente. Preso nos lençóis, grudado na minha pele e na minha mente. Era cedo, mas a luz suave filtrava pelas cortinas pesadas, olhei para o meu redor e Damon não estava ao meu lado.
O outro lado da cama ainda estava morno.
Me sentei devagar, sentindo a tensão agradável no corpo. Uma lembrança física da noite passada. Ainda era difícil assimilar o que havia acontecido. A conexão entre nós, o beijo, o toque, isso tudo parecia loucura… A intensidade com que ele me amou — com o corpo e com o silêncio.
Mas o que me deixava mais assustada era que... eu não estava com medo.
Levantei. Caminhei pelo quarto em silêncio, procurando algo meu, tentando não me sentir tão... invadida por tudo que era dele.
O banheiro da suíte ainda tinha o vapor quente da ducha. As toalhas estavam penduradas com precisão quase irritante. Tudo em Damon era assim — preciso, contido, organizado. Ele era metódico, até quando se despedaçava.
Lavei o rosto devagar e encarei meus olhos no espelho.
Era difícil acreditar na reviravolta louca que estava ocorrendo em minha vida.
Encostei os dedos na nuca, no local onde ele havia sussurrado meu nome durante a noite.
"Porra…" murmurei enquanto meus dedos passavam pela mesma."
Voltei para o quarto.
Uma camisa dele estava jogada na poltrona. Azul escura, com o tecido grosso, o colarinho um pouco amassado. Peguei a peça sem pensar. Levei até o rosto. Respirei fundo.
Era ridículo sentir saudade de alguém que saiu há menos de uma hora.
Mas eu sentia, e isso, que me assustava.
Ele era o típico bad boy, um homem rústico, que só conhecia uma maneira de resolver as coisas: a dele.
E então, enquanto tentava vestir a camisa, algo caiu ao lado da poltrona com um baque seco. Um caderno.
Curiosa, me abaixei e o peguei.
Era de couro escuro, grosso, com as bordas desgastadas. Um diário. Ou algo muito parecido com isso. Quase hesitei, mas a primeira página já estava entreaberta. O nome dele assinado no canto. A letra firme, inclinada, com traços fortes.
E no topo da folha, escrito como se ele tivesse acabado de colocar para fora uma verdade que doía:
“Ela me tira do controle. O lobo sente o cheiro dela antes de mim. E isso... isso me assusta mais do que qualquer inimigo.”
Minha mão tremeu.
A camisa dele ainda estava contra meu peito, mas eu mal sentia o tecido agora. Senti meu coração acelerar, meu estômago se contorcer com uma mistura impossível de sentimentos: medo, surpresa... e algo quase proibido. Alegria?
Ele escrevia sobre mim.
Damon Thorne não parecia o tipo de homem que tinha um diário.
Ele sentia tudo aquilo... e escondia. Talvez fosse a única forma dele conseguir se controlar.
Fechei o diário com cuidado, tentando não fazer barulho. Me levantei, um pouco tonta, e voltei a colocá-lo exatamente onde estava. Por mais que eu quisesse continuar lendo... havia algo íntimo demais ali, e isso era errado.
Algo que, se ele soubesse, talvez não perdoasse.
Mas naquele momento, uma coisa era clara.
Damon Thorn não era só um lobo.
Ele era um homem tentando controlar algo que o consumia — e, de algum jeito, eu estava no centro disso tudo.
O som da porta se abrindo me fez girar rapidamente.
Damon entrou no quarto, os olhos encontrando os meus quase de imediato. Ele parou por um segundo. O cabelo úmido, a expressão fechada. Mas havia algo diferente. Um peso. Como se o mundo tivesse subido em suas costas enquanto esteve fora.
Nossos olhares se prenderam por alguns instantes. E, pela primeira vez desde que cheguei àquela casa, o silêncio entre nós não foi desconfortável.
Foi... cúmplice.
Ele parecia cansado, mas não se justificou. Apenas caminhou até o guarda-roupa, pegando uma camisa qualquer e a vestindo sem me olhar. Eu sabia que ele estava distante — seu corpo ali, mas a mente em outro lugar.
“Está tudo bem?” perguntei, minha voz mais suave do que pretendia.
“Só alguns problemas na alcateia,” respondeu, ainda sem me encarar.
Arqueei uma sobrancelha, sem saber se tinha escutado certo. “Alcateia?”


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