POV: Massimo
Eu não era um bom homem. Nunca pretendi ser. Não pelos padrões hipócritas da sociedade e, certamente, não pelo mínimo necessário para garantir a salvação de uma alma. No meu mundo, a bondade é uma doença terminal que ataca os descuidados. Quando as pessoas ouviam meu nome — Massimo Capone — o som das sílabas não evocava simpatia. Evocava o peso do metal, o cheiro de pólvora e o frio do mármore. O medo e o respeito caminham de mãos dadas pelas ruas de Milão sob o meu comando.
Fiz e continuo fazendo coisas horríveis. A violência é a minha linguagem nativa, tudo em nome do poder, tudo porque sou o Chefe da Família Capone e o Representante da Tríade Negra na Europa Ocidental. Sou o silêncio que precede a tempestade, o cálculo antes do golpe. Vejo o mundo como um tabuleiro de xadrez onde a maioria das pessoas não passa de peões descartáveis. E sentimentos? Sentimentos são fissuras na armadura. E eu não permito rachaduras na minha pele.
No entanto, o status traz fardos que nem mesmo o meu desdém pode ignorar completamente. O próximo passo esperado era o manual clássico da máfia: conseguir uma esposa e produzir herdeiros. Era o que os homens do meu círculo faziam para garantir a longevidade do nome, para cimentar alianças e parecerem mais fortes diante dos rivais. Mas eu nunca senti a necessidade de seguir roteiros escritos por outros. Ouvir os outros nunca foi quem eu era. Foi justamente por ignorar as expectativas alheias que me tornei o homem mais poderoso desta porra de país.
— Você precisa de uma mulher em sua vida, Massimo. E filhos. Muitos herdeiros — as palavras do meu pai, Vittorio, soavam como um disco riscado, repetindo-se em todas as reuniões de família na nossa villa em Lago di Como.
— Eu? — estendi a mão sobre a mesa de mogno pesado e peguei a garrafa de cristal. Servi-me de uma quantidade generosa de whisky, o líquido âmbar descendo com uma promessa de queimação. Inclinei-me para trás na cadeira de couro e encarei o homem que um dia carregou a coroa que agora era minha.
— Eu concordo, Massimo. Já passou da hora — Sofia, minha irmã, soltou com aquela petulância que só ela ousava ter.
Meu pai mantinha o olhar fixo no meu, uma batalha silenciosa de vontades que ele já deveria saber que não ganharia.
— Talvez eu devesse arrumar um casamento para você, Sofia — retruquei, minha voz saindo baixa, porém carregada de uma promessa perigosa. — Pelo visto, você está precisando de alguém que controle a sua língua.
Tomei um gole generoso do whisky, sentindo o calor se espalhar pelo peito. Meu pai soltou um som de escárnio, balançando o copo.
— Como chefe, você precisa de uma esposa e de um herdeiro. Você sabe disso — ele disse, tomando um longo gole.
— Massimo, tenho que concordar com seu pai. Você já está com trinta e seis anos. Está na hora de colocar as coisas em ordem — minha mãe, Aurora, interveio com aquela calma que só ela possuía. Ela era a única pessoa na face da terra que ousava falar comigo naquele tom de correção sem que eu sentisse o instinto de revidar.
Meu nome tinha poder suficiente para fazer homens feitos urinarem nas calças. A maioria tinha pavor de que eu cortasse suas gargantas enquanto dormiam. Eles estavam errados, é claro. Eu não sou covarde. Eu cortaria suas gargantas enquanto estivessem bem acordados, apenas para ter o prazer de olhar nos olhos deles enquanto a vida se esvaía.
— Além disso, sua irmã é muito nova — minha mãe acrescentou, tentando aliviar a tensão.
— É, querido irmão. Tenho apenas vinte aninhos — Sofia sorriu, provocativa.
— Você herdou o nome, Massimo... mas ainda não provou que merece o império se não consegue assegurar o futuro dele — meu pai falou, a voz firme, quase um desafio.
— Acredito que o senhor esteja esquecendo quem é o chefe aqui, pai — respondi, e o silêncio que se seguiu foi cortante.
— Então aja como um.

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