POV: CHIARA
O peso dos olhares sobre nós parecia ter se multiplicado por dez depois que cruzamos o salão e ocupamos nossos lugares na mesa principal do leilão beneficente. A cadeira de madeira entalhada e estofada em veludo era confortável, mas eu me sentia rígida, como se estivesse sentada em um trono de vidro prestes a quebrar. Massimo puxou a cadeira para mim com a sua habitual postura calculada e, antes de se acomodar na dele, bem ao meu lado, inclinou-se sutilmente.
— Sorria, Bella — sussurrou ele, a voz tão baixa que quase se perdeu no início do burburinho do salão. — O show está prestes a começar, e eu não estou falando do leilão.
Um arrepio involuntário subiu pela minha espinha, espalhando-se pelos meus braços e me fazendo prender a respiração por um segundo. Olhei para a imensidão escura dos olhos dele, tentando decifrar o que aquela frase significava. Com Massimo, "show" nunca envolvia apenas luzes e aplausos; geralmente vinha acompanhado de tensão, poder e, às vezes, sangue. Eu não sabia exatamente o que esperar do restante daquela noite, mas a promessa de perigo latente era quase palpável no ar.
Aproveitando que os convidados ainda se acomodavam e a atenção geral estava se voltando para o palco, virei-me um pouco mais na direção dele. Havia algo entalado na minha garganta desde o momento em que enfrentamos o pai dele, Vittorio, e aquele homem do sul, Tomaso Esposito.
— Massimo... me desculpe — falei, mantendo o tom de voz controlado, quase um murmúrio entre nós.
Ele franziu a testa de leve, os olhos correndo pelo meu rosto com uma mistura de estranheza e curiosidade. Ele se inclinou mais, diminuindo qualquer distância.
— Por que você está se desculpando, Chiara? — perguntou, a voz grave e direta.
— Por ter me metido na conversa mais cedo. Por ter falado daquele jeito com o seu pai e com o senhor Tomaso — confessei, mexendo de leve no tecido do meu vestido preto. — Eu sei que aqueles assuntos são complexos e que eu deveria ter ficado em silêncio, mas eu simplesmente não consegui me conter ao ver como eles tentavam ditar as regras.
Massimo soltou um suspiro curto, e para a minha surpresa, um brilho de puro contentamento cruzou suas feições. Ele se aproximou ainda mais, sua boca roçando levemente a lateral do meu ouvido enquanto sussurrava de uma forma que me deixou completamente arrepiada.
— Você não tem absolutamente nada pelo que pedir desculpas, Chiara. Você foi incrível — ele confessou, e o tom de admiração na sua voz era tão genuíno que fez meu coração errar uma batida. — A forma como você calou aqueles dois velhos sem perder a elegância foi uma das coisas mais fascinantes que já vi. Você destilou a dose certa de veneno com um sorriso no rosto.
Eu não consegui evitar que um sorriso de lado surgisse nos meus lábios. Voltei a encará-lo, sentindo uma onda de confiança massagear meu ego.
— Eu avisei que não era uma bonequinha de plástico, Massimo.
Ele soltou uma risada baixa, preenchendo o espaço entre nós com o calor da sua presença.
— Eu sei muito bem que você não é uma boneca, Bella. E é exatamente por isso que você está sentada nessa cadeira hoje.
Antes que eu pudesse responder, o mestre de cerimônias subiu ao palco, testando o microfone e dando início oficial ao leilão beneficente. O salão silenciou aos poucos, e as luzes principais diminuíram ligeiramente, focando a atenção de todos nas peças de arte, joias e antiguidades que seriam exibidas.
Durante todo o início do evento, eu fiz questão de cumprir a promessa que fiz a mim mesma: não saí de perto de Massimo por nenhum segundo. E ele garantiu que eu me lembrasse da sua presença de forma física. Assim que o primeiro lote foi anunciado, senti a mão grande e pesada de Massimo pousar com naturalidade sobre a minha perna, logo acima do joelho, onde o tecido justo do vestido cobria a minha pele. O calor da palma da mão dele atravessava o pano, enviando descargas elétricas direto para o meu estômago. Era um gesto possessivo, mas que, estranhamente, me trazia uma sensação absurda de proteção naquele ambiente hostil.
Enquanto o leilão corria, eu tentava manter os olhos no palco, mas era impossível não notar o que acontecia ao nosso redor. Do meu lado esquerdo e nas mesas adjacentes, eu conseguia perceber os olhares tortos e cheios de desdém de várias mulheres da alta sociedade. Elas me mediam de cima a baixo, criticando silenciosamente a minha audácia de estar ali, o caimento do meu vestido e, claro, o fato de eu estar usando o colar de diamantes que ostentava o peso do nome Capone. Por outro lado, também não passavam despercebidos os olhares de desejo e curiosidade de alguns homens. Sempre que um par de olhos masculinos ousava demorar-se um segundo a mais nas minhas pernas ou no meu decote, a mão de Massimo na minha perna apertava com um pouco mais de força, e ele lançava um olhar tão gélido na direção do infeliz que o homem desviava os olhos imediatamente, fingindo interesse nos catálogos do leilão.
Depois de algumas pinturas e esculturas terem sido arrematadas por valores astronômicos, o mestre de cerimônias anunciou uma das peças mais aguardadas da noite: um colar de esmeraldas legítimas, montado em ouro branco, com uma pedra central que brilhava intensamente sob os refletores do palco. Era uma joia de uma beleza hipnotizante, clássica e imponente.
— Vamos dar início aos lances para esta peça exclusiva de alta joalheria — anunciou o homem no palco. — Começamos com duzentos mil euros.
Imediatamente, várias placas começaram a subir no salão. Os lances subiam rapidamente, de dez em dez mil, demonstrando a ganância daquela elite por ostentação. Eu observava a disputa com um interesse genuíno, achando fascinante como aquelas pessoas gastavam fortunas sem piscar.

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