POV: CHIARA
Os dias que se seguiram à morte de Vittorio Capone foram os mais caóticos e sufocantes que já vivenciei desde que entrei para esse mundo de sombras. A mansão operava sob uma tensão invisível, mas palpável em cada canto, agravada pelo Protocolo Muralha de Ferro que nos mantinha isoladas. No entanto, o mundo exterior não estava alheio à tempestade. Pelo contrário. Sempre que eu ligava a televisão na sala de estar, os noticiários locais e nacionais só falavam de uma onda de violência sem precedentes que assolava os arredores de Milão.
As manchetes eram quase diárias: incêndios misteriosos destruíam estabelecimentos clandestinos na calada da noite, galpões de logística na zona portuária viravam cinzas em poucas horas e corpos de homens com passagens pela polícia — supostamente ligados a organizações criminosas e máfias — eram encontrados em becos e estradas vicinais. Os âncoras dos jornais falavam em "guerra de facções" com rostos preocupados, mas no fundo da minha alma, eu sabia perfeitamente o que estava acontecendo. Cada chapa de metal retorcida, cada incêndio e cada gota de sangue exibida na tela da TV tinham as digitais invisíveis de Massimo. Ele estava cumprindo sua promessa. Estava destruindo, sistematicamente e sem piedade, tudo e qualquer coisa que estivesse ligada ao nome de Moretti.
Estar presa no meio daquela preparação para a guerra estava me enlouquecendo, principalmente porque a minha mente estava dividida entre o luto da família Capone e a saúde do meu próprio pai. Por isso, depois de muito insistir e quase implorar, consegui arrancar de Massimo a permissão para sair temporariamente da mansão. O meu destino era o hospital onde meu pai estava internado. Massimo não cedeu facilmente, e a condição foi clara: eu não daria um único passo sozinha.
Fui ao hospital escoltada por um comboio de dois carros pretos e quatro seguranças fortemente armados sob o comando de Enzo. Eles vigiavam os corredores do hospital como falcões, garantindo que o perímetro ao redor do quarto do meu pai estivesse limpo.
Quando finalmente empurrei a porta do quarto do hospital, senti um peso enorme sair dos meus ombros. Ver meu pai deitado ali, com uma aparência muito melhor do que nas semanas anteriores, foi um bálsamo para o meu coração cansado. Ele estava bem, acordado e reagindo surpreendentemente bem ao tratamento intensivo. Seus olhos ganharam vida quando me viram entrar, e passamos algum tempo conversando sobre coisas simples, evitando qualquer menção ao pesadelo que eu tinha vivido no Palazzo. Eu queria que ele focasse apenas na sua cura.
Enquanto conversávamos, a porta se abriu e o Dr. Arcuri entrou no quarto. Ele trazia um prontuário eletrônico em mãos e usava o seu habitual jaleco branco impecável, com um sorriso genuíno que imediatamente me trouxe um pingo de paz.
— Boa tarde, Chiara. Senhor — o médico cumprimentou, aproximando-se da cabeceira da cama. — Que bom ver que temos visitas hoje. Isso sempre ajuda no humor do paciente.

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