POV: MASSIMO
O céu sobre o cemitério particular da família Capone parecia refletir o humor da Tríade Negra. Nuvens cinzentas e carregadas cobriam o sol, deixando o dia com uma luz opaca, fria e sem vida. O vento soprava forte, balançando as copas das árvores e trazendo o cheiro de terra molhada. Eu estava de pé, vestindo um terno preto sob medida, com os óculos escuros escondendo meus olhos, mas não a fúria que continuava a queimar silenciosamente nas minhas veias.
O caixão de carvalho escuro com detalhes em ouro onde descansava o corpo de Vittorio Capone estava posicionado acima da cova aberta. Ao redor, dezenas de homens leais à Tríade, todos vestindo ternos escuros e mantendo as mãos estrategicamente perto de seus coldres, formavam um perímetro intransponível. A segurança era absoluta. O ataque no Palazzo havia nos ensinado que baixar a guarda não era uma opção, e hoje, no funeral do antigo Don, qualquer aproximação suspeita seria respondida com a morte.
Olhei para o lado e vi minha mãe, Aurora, amparada por Sofia. Ambas vestiam véus pretos e choravam em silêncio. Chiara estava logo atrás delas, mantendo uma postura firme, mas seus olhos verdes carregavam uma dor profunda. Ela olhava para o caixão com um misto de tristeza e culpa que eu pretendia arrancar dela assim que tivéssemos tempo. Vittorio tinha feito a escolha dele, e ela não tinha que carregar aquele peso.
Um pouco mais afastado, chamando a minha atenção, estava Adrian. Ele finalmente havia recebido alta do hospital após o atentado que quase tirou sua vida, mas as sequelas das lesões ainda eram evidentes. Ele estava sentado em uma cadeira de rodas preta, com uma manta escura cobrindo suas pernas e o rosto ainda pálido, com algumas cicatrizes em processo de cicatrização. Matteo estava de pé logo atrás dele, com a mão pousada no ombro de Adrian. Mesmo debilitado e sem conseguir andar, Adrian fizera questão de estar ali para prestar as últimas homenagens ao homem que, apesar de todos os erros, nos moldou para sermos o que éramos. O olhar de Adrian era puro gelo; o ataque que o feriu e a morte de Vittorio tinham transformado o caçula da Tríade em alguém ainda mais implacável.
O padre proferia as últimas palavras em latim, uma ladainha sobre o descanso eterno que não significava nada para homens como nós. No nosso mundo, não existia descanso, apenas tréguas temporárias antes da próxima carnificina.
Enquanto o caixão começava a ser baixado lentamente pelas cordas mecânicas em direção ao fundo da cova, senti uma aproximação sutil pelo meu flanco direito. Era Enzo. Ele se posicionou um passo atrás de mim, mantendo os olhos fixos na movimentação do cemitério, mas inclinou o corpo ligeiramente para que sua voz chegasse apenas ao meu ouvido.
— Don Massimo — Enzo começou, o tom de voz baixo, frio e profissional. — Recebi a confirmação dos nossos esquadrões de frente. Os ataques cirúrgicos contra as propriedades de Moretti foram executados com sucesso absoluto nas últimas horas.
Eu não me mexi. Continuei olhando para o caixão do meu pai descendo para a terra, mas prestei atenção em cada palavra.
— Nossos homens invadiram os três principais galpões de distribuição do Moretti na zona portuária e nos limites da cidade — Enzo continuou relatando, sem alterar o tom. — Conforme as suas ordens, não houve negociação e nem prisioneiros. Meus rapazes executaram todos os soldados e capangas que encontraram pela frente. Deixamos os corpos lá para servirem de aviso. Além disso, os clubes noturnos clandestinos e as casas de apostas relacionadas à rede financeira dele foram totalmente incendiados. Não sobrou um tijolo de pé. O império comercial dele está em cinzas neste exato momento.
Um sorriso sombrio e cruel desenhou-se no canto dos meus lábios, oculto pela gola do meu paletó.
— Excelente, Enzo — sussurrei de volta, a voz saindo como o sibilar de uma serpente. — Quero que continue assim. Elimine e destrua absolutamente tudo o que estiver relacionado ao nome daquele desgraçado. Quero que ele veja os seus homens morrerem, o seu dinheiro sumir e o seu poder virar pó. Quero sufocá-lo até que não reste mais nada. Até que sobre somente ele, sozinho, acuado como o rato que é.
Apertei os punhos dentro dos bolsos, sentindo o desejo de sangue pulsar forte.
— Porque o Moretti pertence a mim. Eu farei questão de matá-lo com as minhas próprias mãos. Vou rasgar a garganta dele devagar e, quando terminar, vou arrancar a cabeça daquele verme para enfeitar a mesa do meu escritório. Vai ser o meu troféu.
— Assim será feito, Don Massimo — Enzo respondeu com um aceno curto e ríspido, afastando-se logo em seguida para continuar coordenando a escolta dos carros.
O caixão finalmente atingiu o fundo da cova. O som da pá de terra batendo contra a madeira ecoou pelo cemitério, cortando o silêncio pesado. Minha mãe soltou um soluço mais alto, sendo abraçada com mais força por Sofia e Chiara. Dei um passo à frente, peguei um punhado de terra preta com a mão direita e a joguei para baixo.

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