POV: Chiara
Bati a porta na cara de Enzo e encostei a testa na madeira fria por um segundo, tentando controlar a tremedeira nas mãos. Dez minutos. Eu tinha dez minutos para deixar vinte e seis anos de vida para trás.
— Amiga, eles chegaram mesmo... — Giulia surgiu atrás de mim, a voz baixa, o susto ainda estampado no rosto.
— Chegaram. Como se eu fosse uma encomenda — respondi, indo em direção ao quarto. — Giu, por favor, me ajuda.
Vesti a primeira calça jeans que vi pela frente e uma camiseta básica. Eu me recusava a usar qualquer coisa especial para "ele". No banheiro, encarei meu reflexo e passei um batom de leve — um pequeno ato de rebeldia para não parecer tão abatida quanto me sentia.
Enquanto eu jogava algumas mudas de roupa íntima, poucas peças de roupa e itens de higiene pessoal em uma mala pequena, meus olhos bateram na cômoda. Peguei o porta-retrato de prata onde eu e meu pai sorríamos em um domingo de sol, antes de todo esse pesadelo começar. Envolvi-o em uma blusa e o coloquei cuidadosamente no meio da mala. Era o único pedaço de felicidade que eu levaria comigo. Giulia me ajudava a fechar as janelas e desligar os aparelhos da tomada.
Peguei meu molho de chaves. Separei uma e entreguei para ela. — Fica com você. Por favor. Venha aqui de vez em quando, veja se as plantas estão vivas... não deixe que o meu lugar pareça abandonado. É a única coisa que ainda é minha e do meu paizinho. — Engoli o choro. — A outra eu vou levar... preciso sentir que ainda tenho para onde voltar.
A campainha tocou novamente. Um toque curto e impaciente. Enzo não ia esperar mais nenhum segundo.
Saímos do quarto e eu dei uma última olhada na minha sala. O sofá onde rimos ontem à noite, a mancha de vinho que ainda não tínhamos limpado, os porta-retratos com fotos do meu pai antes de tudo isso começar. Eu sentia que estava saindo dali para ir a um funeral — o meu .
Abri a porta. Enzo continuava na mesma posição, como uma estátua de gelo.
— Estou pronta — eu disse, segurando firme a alça da minha mala pequena.
— A mala é apenas o que a senhorita deseja levar de imediato? — ele perguntou, olhando para o meu único pertence.
— É tudo o que eu quero levar de mim para lá.
Fechei a porta em um silêncio sufocante. Giulia segurava meu braço com força. Quando saímos na calçada, o SUV preto estava parado com o motor ligado, roncando baixo, e o carro de Giulia logo atrás. Os seguranças abriram a porta traseira com uma sincronia assustadora.
— Tchau, amiga — Giulia me abraçou forte, as lágrimas já caindo. — Se cuida, por favor. Me liga a qualquer hora. Eu dou um jeito de te tirar de lá.


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