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Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei romance Capítulo 207

PERSPECTVA DE SERAPHINA

Aos treze anos, quando eu ainda era considerada uma menina que floresceria tarde, não uma esquisitona sem loba, decidi que estava cansada de esperar a minha loba aparecer para poder me juntar aos outros no campo de treinamento, cansada de assistir da arquibancada enquanto Ethan lutava com os garotos mais velhos, cansada de ser a filha do Alfa que ainda não conseguia se transformar. (Ah, como sinto falta dos dias em que o ‘ainda’ ainda estava no meio dessa frase.)

Enfim, naquela manhã, com a convicção imprudente que só um adolescente poderia ter, peguei a tesoura da cozinha e fiquei diante do meu espelho. Com as mãos tremendo, cortei as ondas espessas de cabelo que emolduravam meu rosto. Mechas de cabelo loiro-trigo caíram na pia, uma após a outra.

O resultado final foi... desastroso. Desigual. Cheio de falhas.

Mas, do ângulo certo, e se eu apertasse os olhos, eu quase parecia um dos meninos. Os dois amendoins no meu peito não foram problema para mim.

O cabelo já era suficiente.

Meu coração disparou ao vestir a túnica velha do Ethan, que eu tinha roubado da lavanderia e atravessado pelo arbusto a leste da mansão.

O som distante de metal e as ordens gritadas me chamavam como um canto de sereia. O campo de treinamento estava vivo com o barulho e a poeira levantada. Guerreiros se moviam em formação fechada, suas sombras nítidas sob o sol do final da manhã.

Eu me escondi junto à cerca, agachada atrás dos arbustos, mas minha curiosidade queimava brilhante demais para me manter escondida.

Mal dei dois passos no campo quando uma voz familiar trovejou: "Seraphina Lockwood!" Meu coração saltou para a garganta. A silhueta do meu pai atravessou o pátio, larga e imponente, e a sua aura de Alfa parecia poderosa o suficiente para silenciar qualquer lobo ao alcance.

"Eu... uh.... Oi, Pai," gaguejei, ajustando a túnica grande demais para mim.

Ele parou na minha frente, com uma expressão assassina. "Mas que diabos você tá vestindo?"

"Roupas?"

"De quem?"

Eu hesitei. "...do Ethan."

Meu pai fechou os olhos brevemente e moveu os lábios em silêncio, como se pedisse paciência aos céus. "E o seu cabelo?"

Passei a mão nervosamente pelos fios curtos e desiguais. "É prático," respondi. "Menos chance de atrapalhar quando eu estiver..."

"Quando você estiver fazendo o quê?" A voz dele era baixa e perigosa. "Quando você estiver me desobedecendo?"

"Não é desobediência!" insisti. "É iniciativa. Só quero aprender, Pai. Todo mundo da minha idade já está treinando..."

"Todo mundo da sua idade que tem um lobo," ele interrompeu rapidamente. "Você não tem. E não vou te colocar numa situação em que você corre o risco de se machucar."

As palavras bateram como pedras no meu peito.

"Eu não sou indefesa," murmurei, entre dentes cerrados.

A expressão dele suavizou por uma fração de segundo antes de endurecer novamente. "Você não tá pronta. Você vai treinar quando a sua loba se manifestar e nem um segundo antes."

"Eu nunca vou estar pronta se você continuar me tratando como se eu fosse uma menininha inútil e frágil!"

Ele suspirou, apertando a ponte do nariz. "Chega, Seraphina. Receberemos convidados importantes mais tarde. Vá pro seu quarto agora."

"Pai..."

"E fique lá. Você tá com uma aparência horrível. Não quero que você se envergonhe mais ainda e me envergonhe também."

Não me lembro bem do que eu disse depois disso (algo desafiador, acho), mas me recordo bem da ardência das lágrimas enquanto eu me virava e saía correndo do campo.

Eu não parei de correr até chegar na floresta. O ar lá era mais fresco, carregado com o cheiro de folhas úmidas e terra e acompanhado pelo canto dos pássaros.

Meu fôlego estava entrecortado e tropecei nas raízes e pedras até que finalmente desabei na base de um velho carvalho e comecei a chorar.

Não sei quanto tempo eu chorei, mas foi tempo suficiente para que a dor no meu peito se transformasse em puro cansaço.

Foi quando uma voz seca veio de cima.

"Sabe, se o seu plano era espantar todas as criaturas da floresta, você tá fazendo um ótimo trabalho."

Eu pisquei e olhei para cima.

Um garoto estava esticado em um dos galhos, apoiando a cabeça em um dos braços, suas pernas compridas balançando preguiçosamente. A luz do sol filtrava pelo dossel de folhas, refletindo nos fios do seu cabelo castanho escuro e no brilho suave do suor na sua têmpora.

Ele parecia ter só um ou dois anos a mais do que eu, mas a sua confiança dava a ele uma presença que fazia o ar parecer se curvar ao seu redor.

Minhas lágrimas pararam instantaneamente. "Quem é você?"

Ele inclinou a cabeça, me observando com leve diversão. "E quem é você?"

"Responder uma pergunta com outra pergunta é falta de educação. Você não tem bons modos?"

Ele sorriu. "Atitude ousada pra alguém que parece ter perdido uma luta com uma tesoura de jardim."

Senti o calor subir pelo meu pescoço. "É estilo."

"Sei…" ele disse, claramente sem acreditar. "E o que um... cara como você tá fazendo chorando no meio da floresta?"

"Não sou um cara," retruquei, ofendida, mesmo que esse fosse o efeito que eu estava procurando causar.

Ele ergueu uma sobrancelha e o seu sorrisinho sumindo em um falso espanto. "Ah. Me enganei." Então, acrescentou, "Isso explica o choro," como se achasse ainda mais divertido.

Lancei um olhar fulminante. "Você é um idiota."

"Ah, já me chamaram de coisa pior." Ele se ajeitou para sentar reto, as pernas ainda balançando despreocupadamente. "Então? O que aconteceu?"

Eu funguei. "Nada."

Ele se inclinou um pouco, apoiando o antebraço no joelho. "Isso não pareceu nada."

Cerrei os punhos. "Meu pai disse que não posso treinar porque ainda não tenho uma loba. Mas eu não sou fraca."

Capítulo 207 1

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