PERSPECTVA DE SERAPHINA
Aos treze anos, quando eu ainda era considerada uma menina que floresceria tarde, não uma esquisitona sem loba, decidi que estava cansada de esperar a minha loba aparecer para poder me juntar aos outros no campo de treinamento, cansada de assistir da arquibancada enquanto Ethan lutava com os garotos mais velhos, cansada de ser a filha do Alfa que ainda não conseguia se transformar. (Ah, como sinto falta dos dias em que o ‘ainda’ ainda estava no meio dessa frase.)
Enfim, naquela manhã, com a convicção imprudente que só um adolescente poderia ter, peguei a tesoura da cozinha e fiquei diante do meu espelho. Com as mãos tremendo, cortei as ondas espessas de cabelo que emolduravam meu rosto. Mechas de cabelo loiro-trigo caíram na pia, uma após a outra.
O resultado final foi... desastroso. Desigual. Cheio de falhas.
Mas, do ângulo certo, e se eu apertasse os olhos, eu quase parecia um dos meninos. Os dois amendoins no meu peito não foram problema para mim.
O cabelo já era suficiente.
Meu coração disparou ao vestir a túnica velha do Ethan, que eu tinha roubado da lavanderia e atravessado pelo arbusto a leste da mansão.
O som distante de metal e as ordens gritadas me chamavam como um canto de sereia. O campo de treinamento estava vivo com o barulho e a poeira levantada. Guerreiros se moviam em formação fechada, suas sombras nítidas sob o sol do final da manhã.
Eu me escondi junto à cerca, agachada atrás dos arbustos, mas minha curiosidade queimava brilhante demais para me manter escondida.
Mal dei dois passos no campo quando uma voz familiar trovejou: "Seraphina Lockwood!" Meu coração saltou para a garganta. A silhueta do meu pai atravessou o pátio, larga e imponente, e a sua aura de Alfa parecia poderosa o suficiente para silenciar qualquer lobo ao alcance.
"Eu... uh.... Oi, Pai," gaguejei, ajustando a túnica grande demais para mim.
Ele parou na minha frente, com uma expressão assassina. "Mas que diabos você tá vestindo?"
"Roupas?"
"De quem?"
Eu hesitei. "...do Ethan."
Meu pai fechou os olhos brevemente e moveu os lábios em silêncio, como se pedisse paciência aos céus. "E o seu cabelo?"
Passei a mão nervosamente pelos fios curtos e desiguais. "É prático," respondi. "Menos chance de atrapalhar quando eu estiver..."
"Quando você estiver fazendo o quê?" A voz dele era baixa e perigosa. "Quando você estiver me desobedecendo?"
"Não é desobediência!" insisti. "É iniciativa. Só quero aprender, Pai. Todo mundo da minha idade já está treinando..."
"Todo mundo da sua idade que tem um lobo," ele interrompeu rapidamente. "Você não tem. E não vou te colocar numa situação em que você corre o risco de se machucar."
As palavras bateram como pedras no meu peito.
"Eu não sou indefesa," murmurei, entre dentes cerrados.
A expressão dele suavizou por uma fração de segundo antes de endurecer novamente. "Você não tá pronta. Você vai treinar quando a sua loba se manifestar e nem um segundo antes."
"Eu nunca vou estar pronta se você continuar me tratando como se eu fosse uma menininha inútil e frágil!"
Ele suspirou, apertando a ponte do nariz. "Chega, Seraphina. Receberemos convidados importantes mais tarde. Vá pro seu quarto agora."
"Pai..."
"E fique lá. Você tá com uma aparência horrível. Não quero que você se envergonhe mais ainda e me envergonhe também."
Não me lembro bem do que eu disse depois disso (algo desafiador, acho), mas me recordo bem da ardência das lágrimas enquanto eu me virava e saía correndo do campo.
Eu não parei de correr até chegar na floresta. O ar lá era mais fresco, carregado com o cheiro de folhas úmidas e terra e acompanhado pelo canto dos pássaros.
Meu fôlego estava entrecortado e tropecei nas raízes e pedras até que finalmente desabei na base de um velho carvalho e comecei a chorar.
Não sei quanto tempo eu chorei, mas foi tempo suficiente para que a dor no meu peito se transformasse em puro cansaço.
Foi quando uma voz seca veio de cima.
"Sabe, se o seu plano era espantar todas as criaturas da floresta, você tá fazendo um ótimo trabalho."
Eu pisquei e olhei para cima.
Um garoto estava esticado em um dos galhos, apoiando a cabeça em um dos braços, suas pernas compridas balançando preguiçosamente. A luz do sol filtrava pelo dossel de folhas, refletindo nos fios do seu cabelo castanho escuro e no brilho suave do suor na sua têmpora.
Ele parecia ter só um ou dois anos a mais do que eu, mas a sua confiança dava a ele uma presença que fazia o ar parecer se curvar ao seu redor.
Minhas lágrimas pararam instantaneamente. "Quem é você?"
Ele inclinou a cabeça, me observando com leve diversão. "E quem é você?"
"Responder uma pergunta com outra pergunta é falta de educação. Você não tem bons modos?"
Ele sorriu. "Atitude ousada pra alguém que parece ter perdido uma luta com uma tesoura de jardim."
Senti o calor subir pelo meu pescoço. "É estilo."
"Sei…" ele disse, claramente sem acreditar. "E o que um... cara como você tá fazendo chorando no meio da floresta?"
"Não sou um cara," retruquei, ofendida, mesmo que esse fosse o efeito que eu estava procurando causar.
Ele ergueu uma sobrancelha e o seu sorrisinho sumindo em um falso espanto. "Ah. Me enganei." Então, acrescentou, "Isso explica o choro," como se achasse ainda mais divertido.
Lancei um olhar fulminante. "Você é um idiota."
"Ah, já me chamaram de coisa pior." Ele se ajeitou para sentar reto, as pernas ainda balançando despreocupadamente. "Então? O que aconteceu?"
Eu funguei. "Nada."
Ele se inclinou um pouco, apoiando o antebraço no joelho. "Isso não pareceu nada."
Cerrei os punhos. "Meu pai disse que não posso treinar porque ainda não tenho uma loba. Mas eu não sou fraca."
"Espera", eu disse rapidamente. "Você não me falou o seu nome."
Ele hesitou e o canto da sua boca se curvou em um sorriso que desapareceu quase tão rápido quanto surgiu. "Você vai descobrir logo."
Ele deu apenas alguns passos antes de parar e se virar um pouco. "A propósito, se o seu plano era parecer um garoto, você falhou. Você é bonita demais."
Então ele desapareceu entre as árvores com tanta rapidez que mal o vi se mover.
O silêncio que ele deixou para trás parecia estranho, vazio.
Minhas bochechas ficaram quentes por causa da sua última observação, mas a dor no meu estômago parecia roer por dentro, dominando tudo.
Se o meu lobo tivesse despertado, talvez eu pudesse ter ido com ele. Talvez eu não me sentisse tão pequena em comparação aos demais.
Mais tarde, voltei para casa aos trancos e barrancos, com a cabeça abaixada e as pontas cortadas do meu cabelo espetadas em todas as direções.
Até a noite, a mansão estava em um alvoroço com os preparativos para a delegação visitante da NightFang.
Fui confinada ao meu quarto para não envergonhar a minha família, mas, mais uma vez, a curiosidade falou mais alto e eu desci as escadas escondida.
Fiquei perto da entrada do salão principal, tentando dar uma espiada no Alfa da NightFang e no seu herdeiro.
Quando consegui, prendi a respiração.
Era ele.
O garoto da floresta.
Ele estava ao lado do seu pai, vestido de preto formal com o brasão da NightFang brilhando no seu peito. O sorriso fácil tinha desaparecido e foi substituído por uma composição educada que parecia muito madura para a sua idade.
Kieran Blackthorne.
O nome se espalhou pela sala como uma corrente baixa, seguido por murmúrios de admiração.
A Celeste, vestida com um manto cerimonial e o cabelo em perfeitos cachos dourados, estava ao lado dele, radiante como sempre.
Ela tinha apenas onze anos, mas já era a garota mais bonita da Alcateia.
Os dois juntos eram a imagem de um futuro de conto de fadas: o herdeiro dos Blackthorne e a princesa dos Lockwood.
E eu era a excluída, observando de longe e desejando não ter sido tão incrivelmente estúpido e míope a ponto de cortar o meu cabelo e me isolar.
Mas, então, o olhar do Kieran varreu a sala e pousou em mim.
O tempo pareceu parar bruscamente quando os seus olhos se iluminaram com reconhecimento, e ele sorriu, um sorriso pequeno, reservado, do tipo que não pertencia à sala ou às pessoas nela, apenas a mim.
E foi nesse momento que me apaixonei perdidamente por Kieran Blackthorne.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei
Finalmente toda a verdade do Lucian veio à tona. Só não faz sentido ele saber antes de qualquer pessoa (inclusive família) que a Zara era prima. Cadê a tia irmã de Margareth então? Porque Sera e Margareth foram mais importantes para Catherine do que esse outro braço da família?...
Quero saber até onde o Lucian estar envolvido com Katherine e Marcos...
Ok, sera não aceitar o vínculo. Agora deixa o Kieran seguir a vida dele em paz...
Tá muito bom os capítulos...
Preciso de ajuda pra comprar moedas, não consigo completa minha compra...
Sera era uma bobinha manipulada e do nada se tornou fodona. A autora exagerou demais. Comecei a ler uma romance onde o começo imita uma história que já existe e depois, a autora acrescentou "os mutantes" na história. Kkkkk Mas os capítulos que abrem essa história nada mais é do quem o plágio de uma história que já existe. A irmã, o marido que gosta da irmã, a noite em que a irmã errada dorme com o cara, casa com ele tem um filho. O divórcio e só depois ele começa a gostar dela... Enfim, copiou na cara dura....
Livro muito bom!!! Sem muita enrolação e historia com enredo e fluxo. Aguardando próximos capítulos e o encerramento breve!!!...
SERAPHINA é muito fraca e idiota,Catherine manipula ela fácil fácil, eu ia lá se sacrificar por uma pai uma família que sempre me tratou mal, eles que se virem...
Escritora por favor, melhora isso aí, Sera fez o ex marido comer o pão que o diabo amassou, botou homens na cara dele, agora a cobra da irmã dela baixa o espírito de Santa e Sara na primeira oportunidade já vai abraçar, me poupe, mais criatividade por favor...
Quando Sera vai descobrir a peste falsa e manipulador que lucian é?? Ele ainda foi embora com o amor da vida dele e ainda deixou a Sera responsável pelos negócios dele, Sera é muito idiota,...