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Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei romance Capítulo 208

PERSPECTVA DA SERAPHINA

A voz da minha mãe me trouxe de volta ao presente.

"Seraphina, querida?"

Pisquei e a lembrança se desfez como uma névoa. O caderno de desenho ainda estava aberto ao meu lado e o perfil esboçado do Kieran olhava em direção à janela.

Senti a umidade escorrendo pelas minhas bochechas.

"Ah, desculpe," falei rapidamente, enxugando o rosto antes que a minha mãe percebesse. A emoção da lembrança ainda pairava sobre mim, mas me esforcei para manter um tom mais firme. "Só me perdi em pensamentos, lembrando de umas coisas."

Ela estava na porta com a expressão entre carinho e preocupação. "Boas lembranças, espero?"

Contive um sorriso de desdém e dei de ombros de forma evasiva. "Antigas."

Foi aí que percebi que o espaço ao meu lado estava vazio. Deus, quanto tempo fiquei alheia?

"Maya?" perguntei.

"Tá por aí com os sobrinhos," minha mãe disse, balançando a cabeça. "Aqueles garotos têm muita energia. Espero que eles não a cansem como fizeram com o pobre do pai deles."

Sorri levemente. "A Maya dá conta deles."

Minha mãe hesitou antes de se aproximar, alisando a saia impecável. "Você tá bem, Sera?"

Dei de ombros, fechando o caderno de desenhos e trancando a lembrança.

Ela me observou silenciosamente por um momento e aproveitei para fazer o mesmo.

De perto, notei algo que não tinha percebido no almoço: as sombras leves sob os olhos dela, as linhas que nem a maquiagem bem-feita conseguia esconder completamente.

"E você?" perguntei suavemente. "Tá bem?"

A mão dela parou no meio do movimento.

"Claro," ela respondeu rapidamente, mas a tensão na voz a traiu.

Estendi a mão, tocando o braço dela. "Mãe."

Ela suspirou. "É um assunto que duvido que você queira discutir.”

"Pode tentar."

"É... a Celeste."

O nome teve o mesmo efeito em mim do que jogar sal em uma ferida aberta.

Claro que era sobre a Celeste.

"Ela não tá vivendo bem na casa da Catherine?" Tentei manter a voz leve, mas não consegui esconder o tom amargo.

Minha mãe fez uma careta. "Você faz parecer que é um passeio.”

“Não é?" perguntei secamente. "Ela tá em uma casa de praia luxuosa, com vista pro mar e empregados atendendo a todos os caprichos dela."

Minha mãe exalou lentamente, olhando em direção à janela como se procurasse calma. “Andei ligando pra ela,” disse. “Sempre. Mas ela raramente atende e, quando atende, tá... distraída. Distante. Eu achei que ela já teria voltado a essa altura, mas...” Seus ombros subiram em um gesto de impotência.

Eu conseguia imaginar a Celeste deitada em alguma varanda ensolarada, respondendo à nossa mãe com desinteresse irritado antes de encerrar a chamada rapidamente.

“Ofereci de ir visitá-la,” acrescentou a minha mãe, “mas ela me rejeitou. Disse que não quer ver nenhum de ‘vocês’.” Ela suspirou. “Ela ainda tá tão chateada...”

Eu segurei uma risada. Pelo histórico da Celeste, isso duraria mais dez anos, e eu nem me daria ao trabalho de negar a satisfação que sentia com isso. Se eu nunca mais a visse, não lamentaria a ausência.

Mas a minha mãe não era eu, e a Celeste não era um problema para ela. Na verdade, ela adorava aquela pequena diaba mais do que jamais adorou a mim.

"Não é que o Ethan esteja feliz com isso," continuou a minha mãe. "Ele diz que se ela quer se afastar, devemos deixá-la, que eu não deveria me rebaixar ao ponto de correr atrás dela quando ela tá sendo tão grossa. Mas..." A voz dela tremia. "Ela ainda é minha filha, Sera."

Acho que o meu crescimento ficou claro pelo fato de que o meu primeiro instinto não foi lembrar a minha mãe, com ironia, que eu também era filha dela e que ela nunca se importou tanto comigo quanto se importava com a Celeste.

"Lamento...", me forcei a dizer.

Ela balançou a cabeça. "Não é culpa sua." Ela olhou para mim com um olhar sincero. "Nada disso é sua culpa, Sera."

Parecia que ela estava falando de mais do que apenas a crise da Celeste, como se tentasse se desculpar por anos de culpas jogadas sobre mim.

Mas, como eu tinha dito ao Ethan mais cedo, hoje não era dia de reviver memórias dolorosas. Escorreguei ao lembrar do Kieran, mas não deixaria isso acontecer de novo.

Então, me virei.

"Você deveria ir, de qualquer forma," eu disse. "Vá vê-la se sente tanta falta assim. Você pode aproveitar para ver a Catherine também. Faz um tempão que vocês não se encontram, né?"

Minha mãe ficou em silêncio por um momento e achei que ela estava pensando na sugestão. Afinal, a Celeste era a menina dos olhos dela e ninguém mais realmente se comparava a ela.

"Na verdade, vou ficar aqui," ela me surpreendeu com a resposta. "Pelo menos até a cerimônia de herdeiro do Daniel."

Me voltei para ela sem conseguir evitar as sobrancelhas de se levantarem. "Isso é... mais importante?"

Ela pareceu um pouco ofendida. "Claro. Seu pai e eu sempre falávamos sobre esse momento. Mal podíamos esperar."

Meus lábios se curvaram levemente. "Fico feliz que o Daniel tenha avós que o adoram tanto."

A voz dela se suavizou. "É mais que isso. Participar da cerimônia do Daniel é como uma... redenção."

Inclinei a cabeça. "Redenção do quê?"

Os olhos dela desviaram, então voltaram para mim. Depois desviaram novamente.

"E eu sei que é minha culpa," ela sussurrou, a sua mão roçando a minha. "Eu te afastei. Não estive ao seu lado quando você precisou da sua mãe. Me desculpe, Sera."

Engoli um poço de emoção.

"Como posso ter certeza de que você tá sendo sincera? Como posso saber que não tá me dando isso só porque a Celeste não tá aqui?"

Ela não pareceu ofendida com a minha acusação.

Ela simplesmente inclinou a pulseira na minha direção e a luz refletiu nas iniciais gravadas na curva interna.

T, M, S.

Tabitha.

Margaret.

Serafina.

"Ela mandou gravar antes de me entregar, e eu fiz o mesmo," explicou a minha mãe. "Há onze anos."

Lágrimas embaçaram a minha visão e eu tive que piscar rapidamente para não deixá-las cair.

Isso não era uma ideia de última hora. Como o Kieran tinha feito, essa era a maneira da minha mãe tentar se reconectar comigo.

Talvez eu fosse mais sensível do que pensava. Talvez eu fosse patética. Ou talvez eu apenas adorasse joias.

Eu sorri suavemente. "É linda."

Os olhos dela suavizaram e ela sorriu, não aquele sorriso formal e ensaiado que apresentou para os Cartridges, mas algo pequeno e hesitante.

"Eu só gostaria de ter te dado isso antes. Há muitas coisas que gostaria de ter feito. E muitas outras que gostaria de não ter feito."

As palavras dela destruíram algo dentro de mim.

Sem pensar, avancei e envolvi os meus braços em torno dela. Por um momento, ela ficou imóvel. Então, me abraçou de volta, mais forte do que eu lembrava.

O perfume dela era o mesmo de sempre: lírios brancos e um leve toque de sândalo. Por baixo, algo mais primitivo: o suave murmúrio da sua loba, calma e maternal. Alina ronronou ao sentir.

"Ah, senti a sua falta, Sera," sussurrou a minha mãe.

"Também senti a sua," murmurei no ombro dela.

Quando ela se afastou, os seus olhos estavam úmidos, mas brilhantes. "E-eu espero que possamos nos aproximar," ela disse, passando a mão pela minha bochecha. "Acabar com essa distância entre nós. Sem mais inimizade."

Assenti, embora soubesse quão frágeis as promessas podiam ser na nossa família. "Eu gostaria disso," disse suavemente.

Ela sorriu, prendendo a pulseira no meu pulso. O ouro captou a luz do fim de tarde, brilhando como uma promessa que, espero, se mantenha.

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