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Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei romance Capítulo 216

PERSPECTVA DA SERAPHINA

O jantar passou em um silêncio estranho e frágil. Não era tensão, apenas... cuidado, como se todos nós estivéssemos nos esforçando muito para não quebrar algo delicado.

Como de costume, o Daniel falou mais, contando animadamente sobre o jogo e movendo o garfo mais do que ele realmente comia.

Kieran ouviu tudo, acenando com a cabeça e respondendo quando era chamado. De vez em quando, eu captava os olhos dele direcionados a mim, olhares rápidos e indecifráveis que faziam algo se apertar no meu estômago.

Mantive a voz firme e o foco no Daniel, na comida, em respirar.

Daniel foi o primeiro a terminar e largou o garfo com um leve ‘click’. “Tava delicioso, Mãe,” ele anunciou, recostando-se satisfeito.

“Obrigada,” eu disse, sorrindo. “Quer sobremesa?”

Ele ergueu os braços em um bocejo teatral. “Na verdade, tô bem cansado,” ele disse, esfregando os olhos. “Vou me deitar.”

Segurei um revirar de olhos. Claro.

“Tudo bem, querido.” Inclinei-me e dei um beijo no cabelo dele. “Escova os dentes.”

Ele pulou da cadeira e hesitou só por um segundo antes de contornar até o lado do Kieran e abraçá-lo pelos ombros.

“Obrigado por jogar comigo hoje, Pai.”

A mão do Kieran levantou, forte e segura, e pairou nas costas do filho. “Sempre que quiser, Danny. Obrigado por me chamar.”

Quando o Daniel subiu as escadas, restamos apenas nós dois e o silêncio imediatamente ficou mais afiado.

Levantei-me e comecei a recolher os pratos. "Vou... uh... limpar isso aqui."

Kieran se levantou também. "Deixa que eu te ajudo."

O cansaço entorpeceu o meu instinto de recusar.

Eu estava desgastada demais e muito fragilizada pela confissão do Ashar para discutir. Também tinha reparado na maneira como o Daniel nos observou durante o jantar, com uma esperança refletida em cada olhar.

"Ok."

Os olhos surpresos, quase hesitantes do Kieran encontraram os meus brevemente e então suavizaram. Ele deu um passo para o meu lado, sem falar nada, mas decidido.

Nos movemos em silêncio, passando pratos, empilhando louças, roçando as pontas dos dedos uma ou duas vezes.

Eu não recuei. Ele não se afastou.

Lá fora, o vento balançava as árvores. Aqui dentro, a água corria suavemente e os talheres tilintavam.

Era uma tarefa doméstica. Simples. Comum.

E, de alguma forma, incrivelmente íntimo.

Foquei toda a minha força de vontade em não olhar para o peito dele, onde estava a lesão.

Mais cedo, quando voltei com o kit de primeiros socorros, ele pegou com um murmúrio de agradecimento e desapareceu no banheiro do andar de baixo.

Não saber se o Ashar tinha me escutado e começado a curar a ferida estava me matando de preocupação.

Quando terminamos, o Kieran secou as mãos lentamente, como se não soubesse o que fazer a seguir. Palavras não ditas pairavam como fantasmas entre nós.

"Obrigado pelo jantar. Tava delicioso." Ele falou, como um cliente elogiando um chef em um restaurante.

"De nada." Ao contrário do chef hipotético, eu não respondi com 'volte sempre'.

Ele pigarreou uma vez e olhou para trás de mim. "Eu tenho…"

Eu assenti. "Claro, vá em frente." Dei um passo para o lado.

Prendi a respiração só um pouquinho quando ele passou por mim e não me movi até ouvir a porta da frente se fechar atrás dele.

O silêncio cobriu a casa, pesado e denso. Aquele peso afundou em mim, cheio de expectativa, como o ar antes de uma tempestade.

Mas, pela primeira vez, esse tipo de silêncio não doeu.

Apenas... estava ali.

Arrumei um pouco mais a casa antes de subir as escadas.

Daniel já estava na cama, mas continuava bem acordado. Ele sorriu quando entrei, como se estivesse me esperando.

"Cansado, né?" Levantei uma sobrancelha.

O sorriso dele se alargou. "Eu tava pensando sobre mais cedo. O hóquei."

Sorri levemente, sentando-me ao lado dele. "Você se divertiu, né?"

Nossa. A palavra se enroscou no meu coração como uma trepadeira.

“Acho,” eu disse lentamente, “que não importa o que aconteceu entre o seu pai e eu, ele sempre vai sentir saudade de você quando não tá por perto. Você é filho dele. E você pode ligar pra ele, vê-lo, ou chamá-lo para brincar sempre que quiser.” Meu polegar acariciou suavemente as bochechas dele. “Nunca pense que tem que se conter por minha causa.”

Ele piscou para mim. “Mas você não vai se sentir sozinha se eu passar mais tempo com ele?”

Essa pergunta me atingiu mais do que eu esperava. Durante anos, o Daniel foi o meu alicerce, a única constante em um mundo que muitas vezes parecia cruelmente incerto.

Mas eu não podia deixar que ele carregasse a minha solidão. Esse peso não era dele.

Inclinei-me para frente e pressionei os lábios levemente na testa dele. “Não precisa se preocupar comigo, amor,” sussurrei contra a sua pele. “Vou ficar bem. Você pode amar o seu pai e se divertir com ele. É isso que as famílias fazem.”

Ele hesitou por um momento, depois assentiu, embora os seus olhos brilhassem com algo profundo e não dito. Alguns segundos depois, ele jogou os braços ao redor do meu pescoço e me abraçou forte.

Envolvi os meus braços ao redor dele com a mesma força. “Por que isso?” murmurei contra o ombro dele.

Ele não soltou. “Não sei se você percebeu, mas agora você é muito mais forte, como uma grande árvore que não cai mesmo quando chove muito.”

Perdi o fôlego. “Uma árvore?” repeti, meio rindo.

Ele se afastou apenas o suficiente para me olhar, com seriedade. "Sabe... raízes fortes e tal. Você não vacila mais, nem mesmo quando as pessoas são rudes com você. Até fez as pazes com a Vovó."

Eu sorri suavemente, piscando para afastar a repentina emoção que surgia nos meus olhos. "Você reparou nisso?"

Ele sorriu, com os olhos se franzindo de uma maneira que me lembrava o Kieran. "Eu quero ser como você quando crescer."

Essas palavras me tocaram profundamente.

Por um momento, só consegui olhar para ele, para o menino que me viu nos meus momentos mais frágeis, e que foi a razão pela qual encontrei forças para me reerguer.

Estendi a mão e o puxei para perto, dando um beijo no seu cabelo.

"Quem você é agora já é bem incrível," murmurei.

Ele suspirou contente e, por um tempo, permanecemos assim, com nossas respirações constantes preenchendo o silêncio.

Deixei as palavras dele se enraizarem em mim, firmes e seguras. Eu era uma árvore, inabalável diante das tempestades.

E eu sabia que, mesmo se a tempestade voltasse, eu não quebraria.

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